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Uma Maquina de Transportar Sonhos

domingo, 2 agosto, 2009 @ 12:07 am

Fraternidade em seu primeiro teste de mar - Foto © Hélio Viana

Enquanto Oleg Belly, um especialista em cruzeiros à Antártica, estava construindo o Kotik em Dois Córregos, no interior de São Paulo, Aleixo Belov foi visitá-lo seis vezes. Ao fim da Aleixo Belov em Noronha - Foto © Hélio Viana construção, em 1993, ele “roubou” os rascunhos do projeto do barco de Oleg e os guardou em uma gaveta de sua mesa de trabalho. Aleixo não sabia, mas aí começava a nascer o projeto do veleiro escola Fraternidade. Dez anos passaram e quando Aleixo fez 60 anos se viu numa encruzilhada: o que fazer da vida? Mais um filho? Não era o caso, já tinha cinco de dois casamentos. Mais uma grande obra? Também não, estava cheio de obras de grande porte na Belov Engenharia. Outra volta ao mundo? Porque não?

“Depois de três voltas ao mundo, e de 30 anos de uso, o Três Marias, [um Bruce Roberts de 36 pés], se tornou uma espécie de fusca dos mares. Foi ótimo para os trópicos e fui muito feliz nele, mas eu já podia conduzir um barco um pouco maior e mais sofisticado. Então, durante a 3ª volta ao mundo, veio a idéia de construir um que pudesse me  levar por qualquer oceano. Na volta me sentei com Bereco, um amigo e engenheiro da Belov Oleg, Aleixo e Bereco na Ilha de Maré - Foto © Hélio VianaEngenharia, e começamos as especificações. Depois de noites (muitas!) em reuniões e discussões entreguei cinco pranchas ao Cabinho para ele melhorar, acrescentar coisas e desenhar as linhas do casco. Durante os cinco anos da construção encontrei-me oito vezes com Oleg e na volta trazia um caderno cheio de alterações. Nas conversas com Jérôme Poncet [outro veterano da Antártica com o Damien II] também voltei cheio de idéias”, Aleixo nos contou no primeiro teste de mar do Fraternidade, na Baía de Todos os Santos, em agosto de 2008.

Mas voltando à construção, com o projeto de Cabinho nas mãos começaram as obras e as alterações. Aleixo mudou a posição dos mastros, dos lemes e refez a casa de máquinas. Na volta de uma visita ao veleiro polar Pelagic de Skip Novak, mais um especialista em Antártica, o cockpit que era para baixo (tinha poço) foi refeito, agora, para cima. Com isso ele ganhou pé O convés é de aço inox 304 - Foto © Hélio Vianadireito em volta das duas mesas de popa. A casa de comando, ou pilot house, foi desenhada cinco vezes e o sistema de cremalheira da quilha outras tantas. E tantas foram as alterações que quase levou à loucura a turma do escritório do Cabinho. Todos os sistemas são duplicados, até o motor auxiliar: “em vez de levar um monte de peças sobressalentes, eu levo logo um motor inteiro. E que funciona!”, Aleixo fala com um sorriso maroto.

O amplo salão do Fraternidade - Foto © Hélio Viana Apesar do cheiro de novo, o Fraternidade já tem a “cara” do dono: aqui e acolá tem uma escultura ou um quadro das muitas peças coletadas durante as três voltas pelo mundo. Supra-sumo dos detalhes: como não existe pé de mastro de madeira, foram reservadas as testas das prateleiras do salão (bem largas) para serem esculpidas por Yasa, o mesmo artista que esculpiu o Três Marias, quando da passagem por Bali.

Na volta do cruzeiro a Fernando de Noronha eu pergunto: Aleixo, para mim o Fraternidade é uma maquina de viagens e para você, o que ele representa?

– “Repare bem. Tudo que aprendi de náutica, de vela, de navegação, de estratégia de mar, eu coloquei neste projeto. Eu tive que construir porque não achei um pronto do jeito que eu queria. Este barco reflete a minha alma, é uma maquina de transportar sonhos”.

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16 Comentários leave one →
  1. domingo, 2 agosto, 2009 @ 7:16 am 7:16 am

    Nesta casa se fala muito na Antartida (vocês falam Antartica e eu não sei se pra nós pode ser das duas formas)o que é muito raro nos sites e blogues Brasileiros que eu visito. A esmagadora maioria das gentes Brasileiras que eu leio e que andam no mar aproam todos para Norte. È um bocadinho frustante, embora eu na minha ansia de querer saber mais não posso pedir a alguem que mude de rumo, apenas para satisfazer a minha curiosidade. Assim espero ansiosamente que o comandante Belov inicie a sua jornada e que a documente (já agora…não é!).
    A questão do “fraternidade” estar super equipado com os sistemas principais em duplicado, eu entendo, porque eu tambem sou assim, mesmo não tendo a capacidade, experiencia de mar e de vida do Aleixo Belov, há coisas que fazem parte de nós mesmos. A questão é que não falta quem diga que no mar e nos veleiros deve ser o mais simples possivel, que no mar tudo avaria e que quanto mais equipamento…..mais avaria. Esta dualidade de critérios tenho conseguido gerir com bom-senso, é facil, ainda estou no inicio, mas aproximam-se tempos para fazer escolhas.

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  2. domingo, 2 agosto, 2009 @ 7:21 am 7:21 am

    Às vezes, aos 46 anos, penso que devia de ter começado aos 30, só quando vejo exemplos de alguem que aos 60 anos inicia um projecto desta envergadura é que eu acordo para a realidade e só por isso já ganhei o dia.

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    • terça-feira, 4 agosto, 2009 @ 11:23 pm 11:23 pm

      Conde,

      Poucos barcos pertencentes a brasileiros foram à Antártica (ou Antártida, tanto faz). Que eu me lembre, só o Paraty e o Paratii de Amir Klynk, o Rapa-Nui que era de Amir e o mini-catamarã de Betão Pandiani. Tem também o Kotic que foi construído aqui, como visto acima, mas deve ter bandeira francesa e o Déjà vu de André Homem de Melo que não foi lá, mas passou perto.
      A idéia de Aleixo, para o próximo ano, é subir a costa e ir para o Pacífico, portanto não será dessa vez que você vai ter novidades brasucas do continente gelado.
      Quanto a duplicar tudo a bordo, você tem razão, se duplica também os problemas. Porem, e sempre tem um porem, é muito cômodo pifar um equipamento e ter outro igual funcionando. Mas também gosto da filosofia KISS: Keep It Simple Stupid.
      E também gostaria de ter começado a velejar e de ter construído o MaraCatu antes, mas gostaria mesmo é de ter feito um barco maior.
      Bons ventos sempre,

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  3. Paulo permalink
    domingo, 2 agosto, 2009 @ 12:29 pm 12:29 pm

    Caro Hélio,
    Fantástica toda esta cobertura do projeto FRATERNIDADE, li quase todos os livros do Aleixo e me impressionam a determinação e a curiosidade pelas coisas do mundo deste ucraniano genético e baiano de coração.

    Eu, como vários outros “velhinhos”, só poderei viajar no FRATERNIDADE, pelas ondas do blog do Maracatu, portanto lhe peço que, por favor, continue nos brindando com estas lindas matérias.

    Por que você não fala um pouco sobre todas as ferragens e materiais de convés do Fraternidade?

    Bons Ventos,

    paulo

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    • terça-feira, 4 agosto, 2009 @ 11:35 pm 11:35 pm

      Paulo,

      Concordo contigo. Aleixo é do tipo, como ele mesmo diz, que não coloca o chapéu onde não pode pegar. Também vou acompanhar a viagem de Aleixo, só que não pelas ondas do MaraCatu Ewblog, mas pela pagina do Fraternidade que está preste a entrar no ar.
      Quanto às ferragens, é muito técnico. Prefiro assuntos mais leves, mas voltarei ao assunto Fraternidade, com certeza.
      Bons ventos sempre,

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  4. Said Najar permalink
    quarta-feira, 9 setembro, 2009 @ 2:41 pm 2:41 pm

    Sou apaixonado por veleiros, um desejo inexplicável que impulsiona minha vida profissional para um dia conseguir navegar. Família, responsabilidades com quatro filhos…. Até agora é um sonho distante que alimento com a leitura náutica. Li todos os ivros de Belov e de outros tantos navegadores, sou seu fã de carteirinha. Cada vez que um de vocês vai, de alguma maneira vou junto e fico grato por compartilhar suas navegadas com todos. Sinto-me como um passageiro, um amigo invisível que torce muito pelos navegadores.
    Quem sabe um dia poderei ter o meu veleiro e cruzar rumo com o Aleixo e todos vocês de verdade e não só em pensamento. Conhecê-los e agradecer simplesmente por tantos momentos bons de leitura.
    Um grande abraço e parabéns pela cobertura
    Said Najar

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    • quinta-feira, 24 setembro, 2009 @ 5:25 pm 5:25 pm

      Said,

      Bem vindo a bordo.
      Se a cobra d’água já lhe mordeu, é meio caminho andado. Agora falta um pouco de planejamento e muita persistência.
      São palavras como as suas que me incentivam a escrever mais. Obrigado.

      Bons ventos sempre,

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  5. Reinaldo permalink
    quinta-feira, 24 setembro, 2009 @ 5:41 pm 5:41 pm

    Este convés em Aisi 316L ficou show!

    Abs,

    Reinaldo

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  6. Paulo permalink
    quinta-feira, 24 setembro, 2009 @ 7:08 pm 7:08 pm

    o que é isto: AISI 316l?
    Pergunto pois estou construindo o meu e ainda não seicomo vou revestir o convés.
    Bons ventos,
    paulo

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  7. Reinaldo permalink
    quinta-feira, 24 setembro, 2009 @ 7:12 pm 7:12 pm

    Paulo, desculpe a “pentelhação” técnica. Foi mal.
    O convés do Fraternidade foi feito em aço inox na liga (composição química) Aisi 316L, é isso.

    Abs,

    Reinaldo

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  8. Paulo permalink
    quinta-feira, 24 setembro, 2009 @ 7:39 pm 7:39 pm

    Legal Reinaldo,
    depois te ando uma fotos do meu 5083.
    Tá ficando um show.
    Eu sou neófito,mas como o Said, adoro viajar com vcs aqui no blog.
    Entro todo dia e no momento tenho buscado muito informação de construção .
    abs
    paulo

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  9. sexta-feira, 25 setembro, 2009 @ 12:07 am 12:07 am

    Pessoall,

    Isso aqui tá parecendo mesa de boteco. Ótimo, afinal não é à toa que barco começa com bar, mas eu também quero participar do papo!

    Reinaldo,

    Os tecnicismos não são “pentelhação”, tamos aqui pra rir e aprender. “Aí si” todos aprendem, já valeu a pena.
    Esse convés ficou mesmo show e você sabe melhor do que eu, já que foi consultor da Belov na época da construção. No MaraCatu quase tudo é em 316L, que chora menos que o 304.

    Paulo,

    Bem vindo a bordo. Qual o barco que você está construindo? Qual o projeto? Neófito e já construindo? Interessante.
    Também quero fotos do 5083 (seja lá o que isso for) e se tiver um link para as fotos da construção, melhor ainda, me manda também. Use o e-mail: helio arroba veleiro ponto net.

    Bons ventos sempre,

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  10. Paulo permalink
    sexta-feira, 25 setembro, 2009 @ 5:22 pm 5:22 pm

    Fala Helio,

    Adoro seu humor, ou mal humor as vezes, e o jeito descontraído do blog.
    5083 tb é uma liga, só que de alumínio. É com ela que estou construindo meu MC 41-SK, projeto “Cabinho” .

    Por isto o interesse em coisas de contrução, em especial no revestimento do convés: pensei que AISI fosse um tipo de revestimento. rsrsrsrsrsrrs

    Depois te mando fotos pois agora estou no trampo.

    Ah, já ia me esquecendo, tenho um primo que fez um charter com vc, o Sérgio e a Fabiana, foi tipo Lua de Mel sabe? Adoraram. Eu disse que só te conhecia da net, mas que qq hora tb queria fazer uma charter com vc só pra ouvir suas “his”estórias.

    Bem, voltando à Maquina de Sonhos, obrigado pelas fotos. Muito legal.

    abs
    Paulo

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  11. segunda-feira, 28 setembro, 2009 @ 8:24 pm 8:24 pm

    Paulo,

    Acompanhei, por fotos, a construção do Kiribati de Luiz Manoel e Marli. Se não viu ainda, aqui tem o que escrevi em mar/2008.

    O charter com teus primos foi muito legal. Eles me botaram o apelido de “capitão candelabro”, pode? Depois conto a historinha aqui, até já tenho as fotos…

    Bons ventos sempre,

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  12. Paulo permalink
    terça-feira, 29 setembro, 2009 @ 12:24 am 12:24 am

    Candelabro????

    Eles são muito legais. Eu e o Sérgio costumávamos velejar juntos lá em Iguape (vale do ribeira). Foi lá que aprendemos a arte da vela, mas sempre em águas abrigadas. Agora estamos nos preparando aos poucos para navegação costeira e depois … quem sabe não encontramos nossa máquina de transportar sonhos.

    Quanto ao Luis e a Marli (Green Nomad – Kiribati), eles são realmente muito gente fina. O Luis fez todo o projeto de corte em CNC do meu barco. Já estive com eles lá em POA 2 vezes visitando o barco e papeando com eles.

    Bons ventos e até breve.

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    • terça-feira, 29 setembro, 2009 @ 1:56 am 1:56 am

      Paulo,

      Sim candelabro. O jovem casal em lua de mel e eu “segurando vela”, mas isso é assunto para um outro post.

      Bons ventos sempre,

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