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Zen e a arte de morar a bordo

domingo, 21 março, 2010 @ 8:05 pm

A vista de um veleiro em alto mar remoça a gente no mínimo uns cento e cinquenta anos – Mário Quintana, em Nostalgia

Quem já não sonhou em estar num barco ancorado em uma enseada paradisíaca, vendo um pôr-do-sol em um lugar antes desconhecido, com uma companhia agradável e um drinque gelado na mão? Sair por aí num barco a vela é um sonho de muita gente. Muitos sonham, poucos ousam.

Em março completamos 11 anos vivendo a bordo do MaraCatu. Nós estamos fazendo uma coisa que poucos chegam um dia a fazer. Isto é a aventura, se fosse fácil o mar teria engarrafamentos. Quando se chega a uma ilha, depois de dias em uma travessia movida a vento, e se encontra outro cruzeirista, de relance se tem certeza que ela ou ele passou por tudo que você também passou: as mesmas ondas, o mesmo pé-de-vento, o céu coalhado de estrelas, o pôr-da-lua. O mar nivela as pessoas.

O mais difícil é largar tudo e adotar mudanças de atitude quanto ao estilo de vida. Você está pronto para ser diferente? Quando, em uma noite fria de junho de 1999, largamos as amarras e saímos pela boca suja da barra da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, lembro que Mara chorou. O estresse da partida, pais e filho ficando no píer, aqueles temores atávicos de sempre: medo de se perder, medo do escuro e de estar diante do desconhecido. Calma querida, a liberdade inicialmente assusta.

Viver boiando é uma experiência que muda a forma de ver as coisas e a forma de nos ver como indivíduo e como casal. Abre-se mão de muitas coisas (alguns confortos, vários, descobre-se depois, não tão essenciais), mas se ganha em qualidade de vida. Passamos a ser mais dependente da natureza, dos verdadeiros elementos da nossa nova realidade: o vento, as nuvens, as marés, as estações do ano. Aprende-se a valorizar o simples. Às vezes, o mais simples não é o mais fácil. Mudam as prioridades: agora o consumo é guiado por critérios como leveza, utilidade e praticidade. Na última vez que Mara entrou num shopping não achou, para ela, nada que se enquadrasse nesses critérios e saiu de lá com um par de sandálias Havaianas… para mim.

É uma forma de facilitar o dia-a-dia construído dia a dia. A água de beber cai do céu, o vento é nosso motor, a energia elétrica vem do sol e a comida pode estar nadando aqui do lado. O barco de cruzeiro é um exemplo de consumo consciente de recursos naturais, longe do discurso político, motivado pela consciência ecológica e pela busca incessante da auto-suficiência.

O Brasil visto além da plataforma continental tem 8000 km de costa, perto de 24 mil quilômetros de rios, açudes e mares navegáveis. Manguezais exuberantes. Vivendo num país tropical, temos ótimas condições para velejar: os alíseos – ventos constantes que alisam o mar -, clima agradável, ausência de fenômenos meteorológicos extremos. Ah, e o povo da costa… Os caiçaras, os beiradeiros, os locais; todos com cultura e filosofia própria, aquele jeito único de levar a vida, a facilidade de fazer novos amigos.

A vela no Brasil é viável e pode não ser de elite. Planejamento, preparação e perseverança são palavras-chave para cruzeirar com conforto e segurança. Seja como hobby, esporte ou estilo de vida. Aumenta a auto-estima e estimula instintos primitivos já esquecidos pelo homem urbano. Reforça o espírito de equipe, nos torna mais flexível e tolerante com os outros.

Os cruzeiristas se frequentam, se convidam. É como uma confraria. Vivendo em um barco a liberdade não é uma simples sensação, ela simplesmente existe. Em vez de uma casa de praia temos uma casa de várias praias. Afinal num barco, sua varanda sempre dá para o mar.

Um barco de cruzeiro é um mundo completo e centrado e, para o olhar do velejador, é a paisagem que se move – David e Daniel Hays, no livro Meu Velho e o Mar.

Meu obrigado à Mara e a João Carlos da veleiro.net, pelas críticas, pitacos e sugestões. Sem vocês seria difícil escrever esta crônica.

27 Comentários leave one →
  1. domingo, 21 março, 2010 @ 11:11 pm 11:11 pm

    parabenssss por essa conquista helio e mara!!!!!
    estou fazendo de tudo p poder daki a um tempo estar compartilhando dessa vida com vcs!!!
    grande abraço e bons ventos!!!!!
    do amigo marcelo passosss

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    • sábado, 24 julho, 2010 @ 12:57 am 12:57 am

      Marcelo,

      Estamos te esperando. Você já está no caminho, é só seguir em frente.

      Bons ventos sempre,

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  2. Bruno Morino permalink
    domingo, 21 março, 2010 @ 11:24 pm 11:24 pm

    ótima a crônica Helio! Parabéns!
    Abraçoss

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    • sábado, 24 julho, 2010 @ 12:58 am 12:58 am

      Bruno,

      Que bom que gostou. Grato pelo comentário. Apareça sempre.

      Bons ventos sempre,

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  3. manoella permalink
    segunda-feira, 22 março, 2010 @ 12:29 am 12:29 am

    Bom ler isto!
    Em julho..eu e breno faremos nossa primeira grande velejada. Subiremos a costa brasileira.
    Olha q bom!!!

    parabens
    abraços

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    • sábado, 24 julho, 2010 @ 12:58 am 12:58 am

      Manoella, minha amiga virtual.

      Espero que tenham curtido a velejada. Foi uma surpresa boa encontrá-los no píer do Iate Clube do Natal. E engraçada, não te reconheci de imediato e perguntei de você a você mesmo. Coisas da senilidade.

      Bons ventos sempre,

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  4. MANOLO permalink
    segunda-feira, 22 março, 2010 @ 8:41 am 8:41 am

    Mara e Helio , vcs sao dignos das invejas boas, queridos em todos os sentidos e exemplos a serem seguidos.
    UM BAITA ABRAÇO

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  5. Nelson e Lucia permalink
    segunda-feira, 22 março, 2010 @ 9:55 am 9:55 am

    Hélio, muito bom o texto. Valeu!
    Nelson e Lucia

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  6. segunda-feira, 22 março, 2010 @ 10:18 am 10:18 am

    Excelente post!

    Comprei a um ano atrás o projeto de veleiro que ainda não saiu do papel. Minha meta é nos próximos cinco anos, tranforma-lo em realidade e soltar minhas amarras.

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    • sábado, 24 julho, 2010 @ 12:59 am 12:59 am

      Fabricio,

      Sei que você é ligado às “Coisas do Mar”, também adoro a Praia do Dentista (só não sou vascaíno). Bem vido a bordo da nau dos construtores amadores. Cinco anos passam voando.

      Bons ventos sempre,

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  7. segunda-feira, 22 março, 2010 @ 11:24 am 11:24 am

    Parabéns Hélio e Mara! E a crônica ficou muito boa. Gosto muito do Mário Quintana mas não conhecia esta dele.

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  8. Enio e Lu. permalink
    segunda-feira, 22 março, 2010 @ 5:09 pm 5:09 pm

    Parabens pela materia, nos sentimos dentro dela pois estamos no mar desde 12/98.

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  9. terça-feira, 23 março, 2010 @ 11:03 am 11:03 am

    Prezado Helio e Mara ,

    Parabens pela matéria e pelo feito !!! esse é o sonho de muito que poucos realizam !!!

    Somos apreciadores do blog Maracatu e retornando a vela agora após um jejum de 10 anos mas estamos firmes e em breve teremos a prazer de conhece-los pessoalmente pois estamos avaliando a opção de ir da Marina da Gloria para Bracuhy em definitivo !!!

    Um forte Abraço
    João neto..

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    • sábado, 24 julho, 2010 @ 1:00 am 1:00 am

      João Neto,

      Dez anos de jejum? Devem estar magrinhos. E sedentos de água salgada. Tragam o Sonho para Bracuhy, garanto que não se arrependerão.

      Bons ventos sempre,

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  10. Rubens Lopes permalink
    terça-feira, 23 março, 2010 @ 11:54 am 11:54 am

    Parabéns vocês dois! A alguns anos acompanho suas aventuras pela internet, e no dia que eu sair com meu próprio barco vou agradecer a vocês hein! Podem ter certerza que me inspiraram muito. 😀

    Um abraço!
    Rubinho (aquele menino de cabelo grande que ficou doido ao ver vocês de longe no cabanga, na Refeno 2008, e não resistiu em dar um alô aos seus ídolos da vela xD)

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    • sábado, 24 julho, 2010 @ 1:01 am 1:01 am

      Rubinho,

      Lembro de você no Cabanga. Você é jovem, tem todo o tempo do mundo. Olha que responça! Inspire e expire. Quando sair de barco não esqueça de nos procurar. Estaremos em algum lugar do Atlântico, na primeira nuvem à esquerda. Te vejo lá.

      Bons ventos sempre,

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  11. ROBERTO RODRIGUES permalink
    terça-feira, 23 março, 2010 @ 12:43 pm 12:43 pm

    Hélio e Mara
    Parabéns pela conquista de poderem morar da forma como moram.
    Hélio, você retratou muitíssimo bem o que é morar a bordo, convivência com outros velejadores, enfim, no mar, tudo ou todos se nivelam. A troca “de favores”, passa a ser uma constante, às vezes, muito mais do que o “vil metal”. Precisamos dele sim para viver, mas não é tão essencial no mar quanto viver “em terra”.
    Quero te fazer aquela visita (levando as brejas) e te enchendo de perguntas sobre vários detalhes que estou encontrando, na fase de acabamento do meu Samoa 29.
    Mais uma vez, parabéns ao trio (Hélio, Mara e Maracatú)
    Ótimos ventos sempre

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    • sábado, 24 julho, 2010 @ 1:01 am 1:01 am

      Roberto,

      Estamos lhe esperando, com as brejas, e se pudermos responder suas perguntas será um prazer. Se não, secaremos as garrafas de cervejas e encheremos sua cabeça de mais duvidas sobre a construção.

      Bons ventos sempre,

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  12. ivanperdigao permalink
    quarta-feira, 24 março, 2010 @ 3:30 am 3:30 am

    Parabéns amigos, pelo “aniversário” e pelo belo texto.

    Ivan e Egle (TAAI-FUNG II)

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  13. quarta-feira, 24 março, 2010 @ 8:29 pm 8:29 pm

    Prezados, vocês acreditaram no sonho, realizaram-o e ainda o realizam, sonho este que não vai acabar. Vocês optaram pelo mais difícil e perceberam que foi o mais fácil. No passado existiram grandes velejadores como Joshua Slocum, Sr.Knox Jonhston, Bernard Moitessier, Jerôme Poncet, Gerard Janichon, Erik Tabarly, apenas para citar alguns. Ainda temos nossos brasileiros como o Helio Setti, André H. de Mello, Amir, os Grael, os Shurmann. São tantos e tão pucos… como fazer uma criança crescer ouvindo o nome de Lars, Torben, etc. A popularização deste mundo fica mais difícil. Muitas vezes ao voltar de uma velejada até a Ilha Rasa, aqui no Rio, vejo as luzes da cidade se acendendo…como pode dar certo tanta gente querendo morar no mesmo lugar? Uns sobre os outros literalmente. Vocês foram mais longe do que pensam. Um país onde não possuimos uma tradição náutica e sim praiana, onde para possuir um barco em uma marina temos que lutar contra inimigos que nunca pensamos que existiam. Pessoas que pensam que pelo fato de se ter um veleiro ou uma embarcação qualquer, somos ricos. E somos, vocês em tempo integral, outros no final de semana. Mas a real riqueza está em saber o que é melhor para nós e para quem nos rodeia. Parabéns, parabéns, parabéns!!! Onze anos…que beleza. Luís Cardoso – veleiro Big Rider (www.veleirobigrider.blogspot.com)

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    • sábado, 24 julho, 2010 @ 1:01 am 1:01 am

      Luís,

      Adorei a foto d’agente no Rio Boat Show publicada no blog do Big Rider. Gostei também do “optaram pelo mais difícil e perceberam que foi o mais fácil”, tens razão! Até aqui está fácil, enquanto estiver assim a gente continua.
      ET: Na lista dos velejadores brasileiros faltou o Cabinho.

      Bons ventos sempre,

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  14. Sandra permalink
    quarta-feira, 24 março, 2010 @ 9:34 pm 9:34 pm

    Parabéns, amigos queridos!
    Bom ter acompanhado isso tudo e continuar acompanhando.

    Beijos,
    Sandra e Miriam

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  15. domingo, 28 março, 2010 @ 10:14 pm 10:14 pm

    Helio e Mara, parabéns, somos também do mar (ainda moramos em terra aqui na Praia da Ribanceira \Imbituba SC) mas estamos, depois de estarmos liberados por nossas filhas, nos preparando a tres anos para empreender essa vida, ou melhor mudar nosso rumo para o mar,en nosso veleiro , de inicio, como frizou, não é fácil, e espelhados nesse casal e seus ideais, mas com determinação, vontade, e responsabilidade, vamos planejando a nossa saída, somos pequenos ainda, mas um dia talvez, nos encontraremos, para um papo, amigo e com desejos de aprender com vcs, voces são maravilhosos, continuem nesse bons ventos sempre, abraços Gilberto e Helenita Veleiro NITAEBETO.

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    • sábado, 24 julho, 2010 @ 1:02 am 1:02 am

      Gilberto e Helenita,

      Bem vindos a bordo. Se precisarem de um empurrão para caírem da ribanceira no mar contem comigo. Espero, em breve, amarrar o MaraCatu ao Nitaebeto para um papo e uns goles. Não esqueça de avisar quando sair de Santa Catarina.

      Bons ventos sempre,

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  16. luiz antonio vianna guimaraes permalink
    quarta-feira, 7 julho, 2010 @ 10:17 am 10:17 am

    Parabéns Midorinha
    É uma grande conquista e mudança de vida. Se vc tem uma meta siga em frente não esqueça do plano de vida da Salete. Coloque o Universo ao seu favor !!!!

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    • sábado, 24 julho, 2010 @ 1:02 am 1:02 am

      Luiz,

      Darei os parabéns à Midorina. Seguirei em frente sem esquecer da Salete (se me disser quem é fica até mais fácil). O Universo já está a meu favor.

      Bons ventos sempre,

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  17. sábado, 24 julho, 2010 @ 12:54 am 12:54 am

    Manolo, Nelson e Lúcia, Beltrão, Enio e Lu, Ivan e Sandra.

    Grato pelos comentários. Vocês, que nos acompanham de perto há tanto tempo, alguns desde o inicio, sabem que esta “vidinha mais ou menos” que levamos é tão boa como coçar entre os dedos com frieira deitado em uma rede. Apareçam sempre, vira e mexe capricho no texto e sai algo mais consistente como agora.

    Bons ventos sempre,

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