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Os caçadores do barco perdido – parte 2

quarta-feira, 19 maio, 2010 @ 12:07 am

Se você chegou aqui agora, é de bom-tom ler Os caçadores do barco perdido – parte 1.

A ancoragem em Cananéia virou um furdunço danado. O MaraCatu fugiu, escafedeu-se, sumiu do mapa, ou melhor, da carta náutica. Na noite escura, holofotes riscavam as margens a procura do barco fujão, os rádios VHFs pipocavam com os tripulantes a cata de noticias. Mara, descontrolada do jeito que estava, era de pouca ajuda e resolvi deixá-la aos cuidados de João, no Yahgan, que me emprestou seu tripulante Ricardinho, um rádio portátil e uma potente lanterna de bateria recarregável.

Apesar de sofrer na pele o que já tinha lido tantas vezes, sobre o que sente um marinheiro ante a perda de seu barco, eu estava relativamente calmo, porque acreditava que o fugitivo não tinha por onde sair, já que o braço de mar faz uma curva acentuada antes de chegar na barra. Certamente ele devia estar encalhado em algum banco de areia, antes de alcançar a boca do canal. Descemos de botinho com a maré, que parecia um rio correndo para o mar, enquanto Ivan foi procurar pela margem. Com todo o burburinho ainda escutei no rádio meu sogro Blumer, que estava nos visitando nesta escala, perguntando se alguém tinha visto sua lata de Leite Moça (boa hora para se preocupar com a sobremesa, né não?).

Iluminando em todas as direções, notei uma sombra mais escura ao longe. Aliás, duas sombras. De repente o refletivo da bóia amarrada na popa se acende e respiro aliviado: ali estava o MaraCatu e ao seu lado, um camaroeiro. Meu barco havia se enroscado no pau de carga de bombordo que o comandante do pesqueiro deixara estendido (o de boreste havia sido levantado). Não fosse isso, o veleiro seguiria em frente e encalharia nas pedras da tal curva do canal.

Eu já falei que a correnteza era violenta? A enxurrada acabou levando os dois barcos juntos, até que se prenderam em algo no fundo. Felizmente os estragos foram menores do que esperávamos: apenas um guarda mancebo empenado. Depois de muito esforço, conseguimos separar os barcos. Mas o MaraCatu se recusava a sair do lugar. As ancoras estavam presas no fundo e não se soltavam de modo algum, mesmo usando o guincho e muita reza. Ninguém sabia o que os prendia lá embaixo, certamente não era um banco de areia. Largamos toda a amarra com uma defensa amarrada na ponta, voltamos para o fundeio e reancoramos o barco com a ancora reserva.

Três dias depois, após varias tentativas frustradas, já estávamos dispostos a cortar os cabos e comprar outra ancora para o pescador, quando o vendedor da loja náutica indicou um mergulhador local: procura o Helinho que ele arranca essas ancoras num piscar de olhos. Dito e feito. Armamos o circo conseguindo emprestados uma voadeira de alumínio e um compressor com um gerador acoplado. Em menos de cinco minutos meu xará desceu os 19 metros de profundidade e, apesar da visibilidade da água ser quase zero, retornou avisando que os ferros estavam soltos.

A ancora do pesqueiro estava enganchada nos restos de um naufrágio. A do MaraCatu havia se enroscado em um cabo submarino que fornece energia elétrica à Ilha Comprida. Depois de tudo resolvido fiquei matutando o que seria de nós se em sua escapada noturna o MaraCatu tivesse arrebentado o cabo submarino. Acho que a população de Cananéia, com o black-out, não nos deixaria sair vivos da cidade.

Esta crônica foi publicada originalmente na extinta Revista OffShore, em setembro de 1 999.

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4 Comentários leave one →
  1. ROBERTO RODRIGUES permalink
    quarta-feira, 19 maio, 2010 @ 12:53 pm 12:53 pm

    Grande Hélio
    Realmente o susto deve ter sido muito grande ao chegar e não encontrar o barco. Parabéns pela narrativa. Você deve ter muitos “causos” para contar. Seria muito interessante e proveitoso ler à respeito.
    Forte abraço e ótimos ventos sempre.

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  2. reinaldomythos permalink
    quarta-feira, 19 maio, 2010 @ 10:13 pm 10:13 pm

    Perai Helião, e o leite Moça, encontraram?? O pudim de bordo é algo de suma importância!

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  3. ivanperdigao permalink
    quarta-feira, 26 maio, 2010 @ 12:07 pm 12:07 pm

    Grande estória Hélio, e ainda teve aquele lance de meu irmão, Marcio, ligando lá de Miami bem na hora em que o MaraCatu ainda se encontrava desaparecido e falando com a desesperada Mara sobre como ela deveria fazer uma ancoragem segura …Isso e mais o pai de Mara perguntando pela lata de leite condensado foi realmente o cúmulo da falta de “timing”…
    Abraços,
    Ivan

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  4. Simonne permalink
    quinta-feira, 20 janeiro, 2011 @ 4:23 pm 4:23 pm

    Nossa! Nem consigo imaginar a Mara… Eita MaraCatu fujão!!!!
    Beijos

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