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Duro na queda

domingo, 23 maio, 2010 @ 2:39 am

Alex Crowell no Clube Naval Charitas

Enquanto saboreia uma fumegante xícara de café, o norte-americano Alex Crowell me conta que aprendeu a velejar com o pai, “eu tinha 11 anos quando ele, oficial da marinha americana, voltou à Califórnia depois da Segunda Grande Guerra”, e lembra uma de suas primeiras aventuras em um barco a vela, quando tinha 17 anos: “o inverno de 1 958 já estava avançado. Navegava próximo às Bermudas. Depois de enfrentar uma forte tempestade por quatro dias, o veleiro de madeira de 47 pés em que eu estava se desintegrou e foi a pique em menos de quinze minutos”. Após oito dias em uma balsa salva-vidas, Alex e o dono do barco foram resgatados por um helicóptero da Marinha Real Holandesa.

Mesmo depois dessa experiência ele não perdeu o gosto de viver no mar, tanto que passou a viver dele. Por um período fez charter nas Ilhas Virgens até poder comprar, em 1976, seu próprio barco, o Faster Horses, um Freya 39 pés (11 m), projeto australiano de Trygve Halvorson, que ganhou a regata Sydney-Hobart de 1 963, 64 e 65.

Seu primeiro cruzeiro durou dois anos. Das Ilhas Virgens, via canal do Panamá, foi até as ilhas do Pacífico Sul e retornou à Califórnia. Daí, seguiu direto para a Flórida. Nesse trecho o Faster Horses marcou um recorde de velocidade jamais quebrado: 120 km/h… sobre um caminhão, é claro.

Novamente nas Ilhas Virgens Americanas, em 1 989, Alex se viu no meio do furacão Hugo, quando teve que enfrentar ventos que chegaram a atingir 150 nós (estonteantes 270 km/h). Três âncoras não foram suficientes para segurar o Faster Horses, que quase foi atirado sobre as pedras em uma enseada na ilha de Culebra. Barco e comandante “quebrados”, para refazer o caixa de bordo ele foi ser oficial de rádio em navios mercantes, até se aposentar.

No natal de 2 000 voltou a navegar. Depois de um cruzeiro pelo Caribe, para vir ao Brasil fez o chamado “Círculo do Atlântico”: foi até Gibraltar e daí seguiu para as Ilhas Canárias, Cabo Verde, Fernando de Noronha e Cabedelo na Paraíba. “Estou encantado com o povo brasileiro e principalmente com os grandes contrastes. É maravilhoso assistir ao Réquiem de Mozart na catedral de Salvador e poucas horas depois ancorar no Paraguaçu, o rio mais bonito que já vi”, Alex e o Faster Horsesdiz Alex.

Nossa conversa rolou na tranquilidade do píer do Clube Naval Charitas, em Niterói, quando Alex preparava o barco para descer até o Uruguai. Ainda lhe fiz a perguntinha básica: quais os planos para o futuro? “Retornar ao Brasil no próximo outono, pois os seis meses que me permitiram ficar é muito pouco para conhecer costa tão rica”.

Este texto foi publicado, de forma resumida, na seção Gira Mundo da edição 185 da Revista Náutica. Mas o que não foi publicado foi a surpresa dos holandeses ao recolher a cestinha com os náufragos: mas como dois homens? O helicóptero pertencia a um porta-aviões em manobra na área. Naquela manhã um avião havia caído ao decolar e as buscas eram para o piloto, que não foi encontrado. Alex é duro na queda, mas é uma cara de sorte. Muita sorte.

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