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Fraternidade – das Marquisas ao Tahiti

segunda-feira, 14 junho, 2010 @ 12:07 am

O Fraternidade no Tahiti

Mais texto e fotos enviados gentilmente por Mariana, a pedido do paizão Aleixo Belov. Boa leitura.

Saímos de Atuona, Hiva Ao, no dia 20 de maio de 2 010 com destino a Rangiroa, arquipélago dos Tuamotus. Saímos cedo como sempre, e depois de passar no canal que nos separava de Tauata, continuamos com a ajuda do motor até nos afastarmos das ilhas e encontrarmos vento limpo. Atuona sempre foi um dos lugares mais queridos e onde tínhamos feito mais amigos, mas o porto era apertado, e toda hora chegava mais um barco que ia se espremendo entre os existentes, às vezes nos obrigando a mudar de lugar. Anos anteriores, éramos seis a oito veleiros, agora éramos vinte e cinco. Isto me deixava triste. Apesar de convidar em meus livros a turma para vir ao mar, percebi que com o GPS, o radio e o Iridium, tudo quanto era gente se aventurava no mar. E o que eu fazia no tempo do sextante já não tinha mais o mesmo valor. Também pouca gente jovem estava navegando. A maioria era de aposentados com dinheiro, que por não ter nada melhor para fazer, ia morar no mar, gente que já não estava plantando e sim apenas colhendo. Eu é que me preocupava em levar jovens, gente que pudesse ao conhecer o mar, amá-lo, e depois utilizar estes conhecimentos pelo resto da vida. O meu propósito parecia destoar do resto da turma.

Tinham se passado dez anos que não pisava nas Marquisas, mas, felizmente as ilhas não mudaram muito. Aumentou o numero de automóveis, mas as casas continuavam rodeadas de arvores frutíferas e de flores, mantendo a natureza bem preservada. As altas montanhas continuavam no lugar, apesar do clima estar um pouco seco, pois a estação das chuvas ainda não tinha chegado. O povo continuava muito amistoso, mas já com menos tempo, pois precisavam trabalhar um maior numero de horas, tinham bebido na fonte do consumismo, e tinham adquirido as novas necessidades da vida moderna. A gente sente que aos poucos vamos ficando todos iguais, é a inevitável globalização. Da nossa turma, mesmo os que não falavam bem o francês, conseguiram se comunicar e passavam o tempo todo rodeados de amigos, conversando, indo para festas ou passeios e ate mesmo missas. Tudo isto era muito bom, mas tinha que seguir viagem. Como tinha demorado muito por aqui, desisti de ir a Fatu Hiva, e rumamos direto para Rangiroa. Eram só 600 milhas. Mais uma vez o vento estava fraco e fizemos o percurso em cinco dias. A preocupação era a entrada no Passe, uma passagem no arrecife de corais que dava acesso ao porto no interior do atol, por onde entrava e saia a água com a inversão das marés, podendo atingir de seis a oito nós de correnteza. Tivemos que estudar muito para acertar a hora das águas paradas, mas deu tudo certo e entramos sem dificuldade. Desde o passe, a água era tão límpida que parecia brilhante e se via perfeitamente o raso e o fundo, somente pela coloração.

Rangiroa é um atol enorme, com 45 milhas de extensão, um dos maiores de toda a Tuamotus. É apenas uma barreira de corais de 50 a 500 metros de largura, lutando eternamente com o mar. A maior qualidade do coral é poder crescer e ganhar terreno debaixo de toda a arrebentação. Os pedaços de coral que o mar vai arrancando se depositam em cima da barreira não passando de um metro acima das águas, onde crescem milhões de coqueiros de saúde perfeita e que sustentam os nativos, que vivem da copra, da pesca e do turismo. O povo aqui vive bem, mas sofre de isolamento, e talvez por isso, foi fácil a nossa turma ficar muito amiga dos nativos que moravam na beira do passe. Mergulhavam com eles, faziam comida juntos, ouviam musica, dançavam e ate muitas vezes levavam colchonetes e dormiam juntos na beira do Passe. Foi uma experiência muito interessante. Viraram irmãos. Mas, com certeza sofriam da neurose das ilhas, tudo era muito lindo, mas eles nem percebiam mais esta beleza, estavam ilhados, uma verdadeira Lito e Alexey com o douradãocadeia de ouro, só não tinham como sair. Passou uma semana, e novamente precisava seguir, desta vez para o Tahiti. Novamente, tive que me preocupar com a saída pelo Passe e sua grande correnteza lutando com as ondas do mar. Toda a água deste atol de 45 milhas de extensão precisava sair por dois passes e mais algumas brechas menores. Por isso, ia todo dia de manhã cedo observar o Passe para determinar a melhor hora da saída, quando a maré parava para se inverter. Os nativos que moravam a beira mar, bem no Passe, estavam todos de plantão para ver o Fraternidade passar.

Saímos sem dificuldade, contornamos a ilha pelo Norte e fizemos rumo para Papeete, Tahiti. O vento estava muito bom e o Fraternidade só faltava voar. Depois de pescar um dourado de um metro e sessenta de comprimento, que lutou muito antes de se render, chegamos ao Tahiti em 30 horas, após percorrer 220 milhas. Estávamos na capital da Polinésia Francesa.

Clique aqui para os outros posts sobre Aleixo e o veleiro-escola Fraternidade.

7 Comentários leave one →
  1. segunda-feira, 14 junho, 2010 @ 8:01 am 8:01 am

    Aleixo,
    Pena que vc teve que pular Fatu-Hiva. Nós a consideramos uma das melhores ilhas de toda a nossa viagem até agora, e eu ia te pedir para dar um abraço no Teco e na Marie Christine.
    Vejo que logo estarão nos passando.
    Se puder, me diga quando vão estar em Vanuatu e que ilha vão parar.
    Forte abraço e bons ventos,
    Silvio e Lilian, Matajusi (Em Fiji)

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  2. segunda-feira, 14 junho, 2010 @ 10:51 am 10:51 am

    ALEIXO!
    COMPREENDO PERFEITAMENTE AS TUAS CONSIDERAÇÕES, REALMENTE É DECEPCIONANTE PORÉM, INEXORÁVEL. HOJE, PARA SER UM NAVEGADOR, NÃO HÁ QUE SABER SOBRE VENTOS, CORRENTEZAS,SOBREVIVÊNCIA E OUTROS ATRIBUTOS INDISPENSÁVEIS AOS NAVEGADORES DE TEMPOS ATRÁS. BASTA APENAS APERTAR BOTÕES. NUNCA FOI TÃO PRÓPRIO AQUELE BORDÃO: BARCOS DE MADEIRA E HOMENS DE FERRO… PASSOU O TEMPO EM QUE NAVEGAR ERA UMA ARTE.
    PACIÊNCIA AMIGÃO, VOCÊ É UM FELIZARDO POR TER PEGO AINDA O FINAL DO POEMA, ELES, NEM O FINAL.
    BOA VIAGEM, SEMPRE COM BONS VENTOS!
    CELSO LAZZARI

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    • samirah bastos permalink
      terça-feira, 13 julho, 2010 @ 8:38 am 8:38 am

      Da missa a metade, quem viveu sabe, quem conhece sabe 😉
      A poesia ainda existe, bote fé!

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  3. douglas martins schiavinato permalink
    segunda-feira, 14 junho, 2010 @ 11:31 am 11:31 am

    Aleixo,
    Viajo junto com vocês em cada relato dessa “expedição”.
    uma pena não ter podido ter ido a Salvador na data da seleção dos candidatos. Dá um certo quê de tristeza por não estar com vocês nessa experiência única e uma alegria ao ler cada relato que fazem da viagem.
    Cada vez mais admiro sua coragem em aceitar uma tripulação totalmente desconhecida em uma viagem como essa. Claro que isso deve gerar algumas situações que o desagradam, como o consumo de água, mas ainda assim lhe dou os parabéns por proporcionar a pessoas desconhecidas uma experiência maravilhosa como essa.
    O mundo seria extremamente mais saudável se tivessem mais pessoas com a mesma iniciativa.

    Bom ventos

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  4. Luis Manuel permalink
    segunda-feira, 14 junho, 2010 @ 1:15 pm 1:15 pm

    Discordo dos comentários pessimistas e algumas opiniões expressas. Ainda há muito lugar para poesia e uma vida verdadeira de navegador. Basta sairmos das rotas habituais se quisermos ter lugares só para nós e não nos preocuparmos demais com a vida dos outros, e fazermos a nossa navegação no estilo que decidirmos.

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  5. diariodoavoante permalink
    segunda-feira, 14 junho, 2010 @ 4:41 pm 4:41 pm

    Pode ser que a navegação na era anterior ao GPS fosse mais corajosa, mas que navegar continua sendo uma arte, disso eu não tenho dúvidas. Não é um simples GPS, um Radar ou mesmo um eco sonda que tenham colocado um ponto final no poema mar. O mar é um longo e infinito poço de poesias. Somente os rancosos de alma e os que abandonaram o mar não conseguem enxerga-los. O mar reconhece os bons e pune os impostores. Bons ventos ao comandante Belov e seus alunos.

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  6. Fininho permalink
    segunda-feira, 14 junho, 2010 @ 6:53 pm 6:53 pm

    Alem de nao adiantar nada apertar um botao, obter um ponto no GPS e nao saber o que fazer com ele. Entao, eh preciso saber navegar sim, escolher boas rotas, boas meteorologias, ja que temos essas ferramentas a disposicao seria tolice nao usa-las. E se os jovens nao navegam muito como ele se refere nao seria por um motivo prosaico como simples falta de $$$? Talvez nosso caro belov esteja um pouco saudosista e ele tb pediu nao eh, se enfiou nos lugares mais classicos do turismo embarcado. Mas acredito que ainda existam lugares tranquilos e paradisiacos, basta nao ter muita pressa de “mostrar” o mar para os jovens….

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