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Atlântico 2010 – Impressões de viagem

sexta-feira, 27 agosto, 2010 @ 6:12 pm

Desde os tempos imemoriais o ser humano vive dividido entre dois impulsos contraditórios: segurança e aventura. Qual a aventura nesse mundo quase pronto, onde teoricamente tudo funciona, e tão encolhido pelos modernos meios de comunicação e locomoção? O que podemos fazer para pular a cerca elétrica? Atravessar um oceano à moda antiga, por via marítima, é uma aventura possível.

Todos os anos mais de 1 000 barcos cruzam o Atlântico, normalmente no rumo de casa. É o que vamos fazer com o trawler Ferrara: levá-lo de volta a Europa, depois de quase 10 anos nos mares do Sul. Sim, é um risco calculado. Mas tem coisa mais desafiadora do que saber dos perigos que a gente pode correr numa travessia transoceânica e mesmo assim estar disposto a embarcar? Esta é a aventura.

Certa vez perguntei a Lin Pardey, que se preparava com o marido Larry para cruzar direto de Angra dos Reis para a Irlanda, se não dá certo receio fazer uma travessia tão longa num barco de 29’ sem motor? Lin sorriu e me respondeu que não, que uma vez estando tudo preparado era só desligar o botão de “what if”.

Saímos na 1ª sexta-feira de agosto, um dia não propício segundo os franceses para iniciar uma travessia. Ainda mais com a visão da draga La Belle espetada nas pedras do molhe da entrada do porto de Natal. Desliguei o botão do “e se” acontecer algo, mas, mesmo assim, não deixei de sentir um friozinho na barriga.

Os primeiros três dias são sempre os piores. O corpo reclama: quem é de enjoar deita cargas ao mar, trabalhamos músculos pouco solicitados em terra e mudamos nosso regime de sono. Depois o organismo se adapta, ao tombo do mar, a cochilar entre os turnos de vigília, entramos no ritmo e criamos até uma rotina.

Numa travessia deste porte tem sempre umas coisinhas para fazer a bordo. Já é esperado, levamos um monte de peças de reposição, mas não é nada agradável escutar soar o alarme de alagamento no meio do mar. A mangueira de uma das bombas de esgotamento do porão, a que vai acoplada ao motor por uma correia, estourou e parecia um chafariz com todo o Oceano Atlântico querendo entrar no barco por um buraco de 1 ½ polegada. Ajudei mi capitán Jordi, que além de chef de cuisine profissional era o chefe de máquinas, a estancar a entrada d’água. Foram horas na casa de máquinas que parecia uma fornalha sacolejante e se de fato o bafo quente do inferno existe, posso dizer que já o conheço.

Netuno não compareceu à cerimônia, pois todos os quatro tripulantes já tinham cruzado o Equador em navegadas anteriores. O Ferrara cruzou a linha imaginária, que é um fetiche para todo navegador de águas azuis e separa o mundo em Norte e Sul, no domingo, dia 8, às 22:30, na longitude 030º 54’ W. Não tomamos um gole de Aquavit, comemoramos com uma garrafa de cava, o espumante catalão, e degustamos um carpaccio que Jordi preparou com o peixe que João Gaucho pescou ao entardecer. Foi uma festa.

Engana-se quem pensa que no mar tudo é monótono. É incrível como passamos horas olhando o mar, que está sempre mudando, o azul profundo, a crista acesa das ondas maiores, uma ave que tenta pousar no convés. Depois de um tempo de viagem os prazeres se tornam singelos: o pão fresco quentinho que Mara fez para a ceia, a reunião de toda a tripulação no happy hour ao pôr-do-sol, ler o e-mail diário de João Carlos com a previsão de ventos favoráveis e mar amigável. Muda-se, também, a percepção de magnitude: naveguei em profundidades de 5 150 metros, logo eu que mal sei nadar e posso me afogar em 1,70m de água; na reta final flagrei Mara dizendo que faltam “só” 315 milhas para nosso destino, é logo ali, algo como uma regata Recife-Fernando de Noronha.

Nos turnos noturnos, sentado sozinho no convés, não me cansava de fitar o firmamento.Um céu quase desconhecido, com o Cruzeiro do Sul cada vez mais baixo no horizonte e a Polar em nossa proa – estrelinha difícil de achar, mesmo depois de Jordi mostrar os alinhamentos com as bissetrizes do “W” formado pela constelação de Cassiopéia. No Hemisfério Sul estamos acostumados a ver a lua crescente em forma da letra “C” e a decrescente em forma de “D”. Na banda de cima do Equador se diz que “a lua engana”, é tudo ao contrário.

Quando, depois de navegar 1 573 milhas em 222 horas, jogamos a âncora em Mindelo e desligamos os motores, o silêncio se fez tão sólido que dava para fazer um lais de guia. Mindelo, na Ilha de São Vicente, a capital da vela do arquipélago de Cabo Verde, está a menos da metade do caminho até o velho mundo, mas considero este trecho a travessia. O vasto Atlântico já ficou pra trás, agora serão pernas longas, mais difíceis até, mas com várias escalas pelo caminho. Só me resta plantar umas árvores para compensar os 3 733 litros de diesel que queimamos.

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8 Comentários leave one →
  1. Fernando Previdi permalink
    sexta-feira, 27 agosto, 2010 @ 8:28 pm 8:28 pm

    Caro Hélio,
    É ótimo ler suas postagens!!! Essa aqui ficou incrível…
    Aguardamos seu retorno pra te fazer uma visita lá em Angra.
    Abraços 😉
    Fernando Previdi

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    • sexta-feira, 25 março, 2011 @ 1:13 am 1:13 am

      Fernando,

      Ih, demorei tando a responder que até já nos encontramos.
      Grato pelas palavras.
      Bons ventos sempre,

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  2. Neusa permalink
    sexta-feira, 27 agosto, 2010 @ 9:05 pm 9:05 pm

    Oi Helio
    É ótimo saber notícias de vocês e sempre um prazer ler os seus textos. Este está especialmente delicioso. Eu me senti como que vivendo um pouco a rotina de vocês no Ferrara. Uma jóia!
    Beijão prá você e Mara e bons momentos para toda a tripulação.
    Neusa

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    • sexta-feira, 25 março, 2011 @ 1:16 am 1:16 am

      Neusa,

      Grato querida.
      A viagem foi realmente muito boa, nos divertimos bastante (e trabalhamos um pouco também).
      Beijão procê também e nos vemos em Bracuhy,

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  3. diariodoavoante permalink
    sexta-feira, 27 agosto, 2010 @ 11:20 pm 11:20 pm

    Eita bixiiiga!!! Amigo, esse texto ficou arretado de bom. Grande abraço a toda tripulação, Nelson.

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    • sexta-feira, 25 março, 2011 @ 1:18 am 1:18 am

      Nelson,

      Gracias meu caro. Que bom que gostou, vindo de quem também escreve é um elogio da mulesta.
      Bons ventos sempre,

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  4. terça-feira, 31 agosto, 2010 @ 7:10 am 7:10 am

    Ai Amigos, bom demais ouvir vcs. Alias…adorei esta pagina. Conta tudo sobre segurança x aventura. Acho que vou copiar e incluir nos meus emails ( o credito e`do Maracatu). Estamos na Nova Caledonia deste ontem. Amanha a gente conta mais. Beijos, Bel e Bob

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    • sexta-feira, 25 março, 2011 @ 1:22 am 1:22 am

      Bel e Bob,

      Pode copiar a vontade. Foi um prazer passear com vocês pela Ilha Grande.
      Quem sabe se não vamos visitar vocês na Nova Zelândia?
      Beijos e bons ventos sempre,

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