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Fraternidade – da Nova Caledônia a Indonésia

quarta-feira, 10 novembro, 2010 @ 1:37 am

Fraternidade no mar

Tem relato novo de Aleixo Belov, que está dando a volta ao mundo com tripulação a bordo do veleiro-escola Fraternidade. O velho lobo do mar já completou meia volta ao mundo, deixou o barco em Weipa, na Austrália, passou 10 dias no Brasil e já está no Sri Lanka. Mas isso é assunto para outro post amanhã. Boa leitura.

Estavam previstos ventos fortes de Oeste na capital da Nova Caledônia, bem na cara, por isso liguei o motor e antecipei em um dia a chegada a Nouméa (08/07/2010). O porto era bem balizado, marcado com bóias amarelas onde seria possível ancorar, mas estava tudo lotado. Nem a marina tinha no momento uma vaga para um barco do tamanho do Fraternidade. Talvez amanhã, respondeu a moça no radio. Terminei ancorando longe para dormir e descansar, mas, no dia seguinte teria que mudar de lugar, pois estava em um lugar desabrigado para ventos de Oeste. Na manhã seguinte acordamos cedo para arrumar um lugar que além de ter águas profundas era apertado, e assim que ancoramos o Oeste entrou rasgando. Logo logo ele girou para Sudoeste e o Fraternidade com seus 21,50m de comprimento e 60m de corrente foi se jogando para cima dos barcos menores, obrigando-me a mudar de lugar varias vezes, sem poder ir em terra fazer os papeis. Só quando, pelo radio, descobri que surgira uma vaga na marina, a vida melhorou. Combinei toda a manobra com a turma, repetindo varias vezes, e terminei encaixando o Fraternidade em um lugar apertado sem danificar nada, sem arranhar ninguém. Foi uma sorte regada a muito esforço.

Agora, na marina e bem atracados, sem pensar no vento, com banho quente e o mercado de peixes e frutas bem em frente, internet, restaurantes e padarias, não podia sonhar com nada melhor. Deu para dar finalmente uma relaxada.

Foi a partir da Nova Caledônia que consegui por duas vezes a licença para ir de veleiro a Indonésia, com ajuda da embaixada deste país, onde fiz boas amizades. Por isso, tive que voltar lá. Tinham se passado 25 anos, desde a minha ultima visita, durante a segunda volta ao mundo. A embaixada tinha mudado de lugar, com um prédio totalmente novo. Provavelmente não encontraria ninguém conhecido, pensei. Para minha surpresa, o portão não estava trancado e fui entrando, primeiro pelo jardim e depois na recepção. De repente avistei Catherine sentada na escrivania. Fiquei calado, parado para ver o que acontecia. Ela me olhou, depois falou: Aleixo! Toda emocionada levantou-se para me dar um abraço. Arrepiei-me todo. Como é bom ter amigos, e como era bom revê-los. Fui me lembrando dos dias maravilhosos que passamos aqui, junto com seu irmão Maurice, e que foi o destino quem se encarregou de nos afastar. Neste instante tive certeza de que foi bom ter voltado a Nova Caledônia. À medida que vamos ficando velhos, em vez de procurar novas aventuras, vamos vivendo mais de recordações e de nostalgia. Fazer o que?

Depois de matar a saudade e conversar bastante, foi marcado um almoço, no domingo, na casa de Maurice, onde compareceu Catherine, sua mãe, seus irmãos, esposas, maridos, filhos e outros. Um verdadeiro banquete de comida da Indonésia além de doces e tortas. Os irmãos de Maurice pegaram as guitarras, tocaram e cantaram canções da Indonésia. Alimentavam a saudade de suas origens, mas sabiam que nunca mais voltariam para lá. Estavam enraizados definitivamente na Nova Caledônia. Depois, foram todos conhecer o Fraternidade, onde ficaram até o por do sol.

Um dia apareceu uma brasileira no barco, foi uma alegria. Gorete logo telefonou e no fim da tarde já tínhamos uma meia dúzia de conterrâneas. Eram quase todas de Belém ou Amapá, de onde foram à Guiana Francesa, por lá se casaram e os maridos foram transferidos para trabalhar nas minas de níquel daqui. Eram ótimas pessoas, mas quase sempre estavam no segundo casamento do marido bem mais velho. Diziam que não os amavam e parece que continuavam só por conveniência, enquanto a vida passava e elas deixavam o tempo correr.

No sábado, Rafael, Osvaldino e Hélio prepararam uma feijoada a bordo para umas 15 pessoas com direito samba, a forró e tudo. Também teve um churrasco animado na casa de um casal de brasileiros. Por aqui o tempo voava e já estava ficando atrasado. Abasteci de água, diesel e mantimentos, e na manhã de 21 de julho desatraquei para a Austrália, exatamente para Thursday Island, seriam mais1800 milhas.

Esta quarta volta ao mundo estava sendo diferente. Sempre naveguei apenas no verão ou na primavera. Quando o inverno chegava, atravessava a linha do equador e entrava novamente no verão. Desta vez estou navegando no inverno e no outono, e parece que horas tem menos vento ou quando tem, tem vento demais. No trecho indo para a Austrália teve muito vento, e fiz as 1800 milhas em 11 dias. Às vezes o Fraternidade surfava nas ondas como se fosse uma prancha. Mais uma vez atravessei o Estreito de Torres e a Grande Barreira de Corais da Austrália para chegar a Thursday Island, que é o porto de entrada. Como o vento soprava muito terminei ficando na Horn Island que da melhor proteção. Como sempre, as autoridades australianas enchem o saco, confiscam parte dos alimentos e tentam lhe multar. Queriam que eu, mesmo tendo o visto, avisasse com 4 dias de antecedência a aduana, que estava chegando. Depois de muita conversa, mostrando que sou jornalista e escritor, fui liberado de uma multa de 6000 dólares, recebendo apenas uma carta de advertência. Só passei ai 2 dias e fui para Weipa, que ficava a 180 milhas. Weipa é um porto em um rio cheio de manguezais e crocodilos de água salgada, mas é bem abrigado, onde, depois ter completado meia volta ao mundo, deixaria o Fraternidade com os três alunos tripulantes e passaria 10 dias no Brasil.

A viagem era longa. Weipa, Cairns, Brisbane, Sydney, Buenos Aires, São Paulo e finalmente Salvador. Precisava ver a minha gente, ver a Belov Engenharia e fazer uma revisão na saúde. Só o dente vinha doendo há 45 dias. Fiz algumas reuniões com clientes, matei a saudade da nossa gente e da nossa cidade e retornei via Auckland para seguir viagem. Estava na Austrália, do outro lado do mundo, e como faltava chão para conseguir voltar para casa. Não era só voltar. Teria que voltar com o Fraternidade inteiro e sua tripulação com saúde. Era muito grande a minha responsabilidade, e eu não parava de pensar nisso um só instante. Ao chegar, passei apenas um dia para comprar frutas e verduras, o restante a tripulação já tinha feito. Icei a ancora e fui saindo. Uma amiga uruguaia, muito saudosa dos sul-americanos, veio, com as filhas, assistir a saída enquanto o Fraternidade rasgava as águas pelo canal. Adeus Austrália. Era triste reconhecer, mas daqui mesmo não vou sentir saudades.

Amigos na IndonésiaO Fraternidade avançava pelo Golfo de Carpentaria, e como tinha pouco vento fui ajudando no motor. Aliás, o Mar de Arafura e o Mar de Timor já eram meus velhos conhecidos, onde as calmarias se escondem e as coisas não tem pressa. Nunca foi fácil atravessar esta região, a não ser para pessoas que cultivam a paciência. Paciência nunca foi o meu forte, mas quando não tem remédio, remediado esta. Os dias foram passando, e após vencer as 1750 milhas, chegamos no dia 12 de setembro em Bali. Estava, pela quarta vez, de volta ao Oriente, e vinha desta vez trazendo jovens brasileiros, que logo se encantaram com o lugar.

Clique aqui para a série de posts sobre Aleixo e o veleiro-escola Fraternidade.

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2 Comentários leave one →
  1. Joao permalink
    quarta-feira, 10 novembro, 2010 @ 9:15 pm 9:15 pm

    Po, concordo que o Aleixo eh um navegador que realiza suas pretencoes, isso ninguem nega, mas sinceramente nao gosto do ar de pretensao, ao dizer…”alunos tripulantes” ou “nossa gente”, quale o cara eh Ucraniano. E tb ta sempre querendo voltar correndo para casa, desde a primeira volta ao mundo, ta sempre com pressa. Voltar para “minha gente” para mostrar aos “nossos jovens brasileiros”, o mar…aff.
    O que salva eh que ele ao menos navega, faz o que diz que vai fazer e nao fica escrevendo livros de um cruzeiro “dificilimo” de Ubatuba a Ilha grande como muito navegador de fim de semana.

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  2. terça-feira, 5 abril, 2011 @ 1:10 pm 1:10 pm

    Gostei muuuito do comentario a respeito da pobre e iludida Australia ! Eles são esparros do Americano uma hora ,do judeu Chines outra hora ,e do Ingles outra hora ainda !! No meio tempo o racismo o odio e a frustração imperam em muitos lugares .North Queensland e um terreno fértil pra esse tipo de coisa…fico feliz em saber que alguem tomou no couro tbm.

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