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Atlântico 2010 – à deriva

terça-feira, 11 janeiro, 2011 @ 12:07 am

Mais um pôr-do-sol em alto-mar

Se você chegou aqui agora, é melhor ler o post anterior. Este é o segundo relato, de uma trilogia, da nossa travessia de Mindelo, em Cabo Verde, para a ilha de Gran Canaria.

O Ferrara tinha uma tela, uma espécie de lona, colada de alguma forma em suas obras vivas, a parte do barco que fica submersa, para proteger a madeira contra a ação dos gusanos – uma praga marítima que come a madeira fazendo furinhos como se fosse uma broca. A preocupação de mi capitán Jordi era se a lona, que estava se desprendendo do casco, rasgasse em longas tiras, poderia enroscar nos hélices e aí bau, bau. Um trawler sem motor é como um veleiro sem mastro.

Fizemos o que era possível de cima do convés para arrancar os pedaços que se soltavam. Puxamos com um croque e cortamos com uma faca amarrada em outro croque, mas não funcionou. A lona era muito dura e chegou a quebrar duas facas. Então seguimos assim mesmo, em baixa velocidade, com a linha d´água na proa parecendo a mini-saia de uma passista de frevo.

Mara e João no cafezinho ao fim da tardeMi capitán não conseguiu relaxar mais. Na 1ª hora da madrugada do dia 20 de agosto, ele resolveu parar o barco, esperar o dia amanhecer para cair n´água e tentar arrancar o que estivesse mais solto, ou pelo menos avaliar a situação. Fui voto vencido. Desligamos os motores na posição 24º 11´ N – 019º 53´ W e passamos o resto da noite à deriva, com o barco de lado pras ondas, escorregando para Sudoeste com velocidade de um nó e meio. Escolados que estávamos com a faca de dois legumes que é sair por aí todo conectado, desligamos o rastreador por satélite Spot. Noite de cão, depois o vento nordeste nos cobraria em dobro este tempo perdido.

Pense numa coisa complicada. O Ferrara tem um costado alto, mas parado de lado pras ondas ele quase chegava a embarcar água. Mi capitán Jordi, que morre de medo de mergulhar no alto-mar, não conseguiu fazer muita coisa. Num minuto ele estava a flor d´água O spary na orça ferradaagarrado com a lona tentando cortá-la, noutro estava submerso a quase meio metro e depois era quase lançado ao convés. Chegou a ficar perigoso, como quando a correnteza quase o afastou do barco. Foi um sufoco danado. Pelo menos deu pra confirmar que o problema era só na proa. Voltamos a navegar na posição 24º 05.198´ N – 019º 55.474´ W. Vamos continuar assim, em baixa rotação e torcer para a mini-saia da passista de frevo não aumentar.

Acha que acabou? Parece que no mar os problemas nunca vêem sozinhos. E nós que achávamos que podíamos enroscar na nossa própria saia, acabamos enganchando mesmo em outra coisa. Mas isso é assunto para o post de amanhã.

Clique aqui para os outros relatos de nossa travessia do Atlântico.

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