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Fraternidade – de Áden ao Sudão

quarta-feira, 6 abril, 2011 @ 6:07 am

SudaoOldSuwakin

Direto de bordo do veleiro-escola Fraternidade, sim já estamos a bordo!, segue o relato do meu comandante Aleixo Belov do trecho de Áden à Old Suwakin, no Sudão.

Saímos de Aden no dia 10 de março de 2011, navegando mais uma vez em comboio, como desde a Índia, formando uma figura geométrica, distando um barco 100 a 150m do outro, tendo o Yemen pelo norte e a Somália pelo sul. Ainda que 2000 milhas, da área onde os piratas estavam atacando, já tinham sido percorridas, faltavam mais 130 milhas bastante perigosas, e de nada valia, nadar, nadar e morrer na praia. Não parava de pensar nisto, tentando adivinhar o que o destino estava guardando para o Fraternidade e sua tripulação. Éramos apenas 3 a bordo, Aleixo, Osvaldino e Tais, e era muito difícil manter os barcos em posição de comboio dia e noite por 2130 milhas, com tão pouca gente. Percebia que Lo, o organizador e líder do comboio, estava bastante nervoso. Este foi o ano mais afetado pela pirataria, com quatro americanos mortos a poucas milhas da nossa posição e muitos navios e veleiros seqüestrados, inclusive com crianças a bordo. Por isso mantive a tripulação reduzida sem convidar novos alunos.

Tínhamos atrasado a saída de Aden por causa do mal tempo no Estreito de Bab el Mandeb, na entrada do Mar Vermelho, e quando tudo parecia bem, o comboio seguiu mas teve de parar atrás de uma ponta de terra para dormir. Lo não quis atravessar o estreito a noite em formação de comboio com vento força 7. Nesta dormida, o vento encheu o Fraternidade de areia vinda do deserto, mas bem cedo, já estávamos navegando outra vez, e assim que avançamos 30 milhas pelo Mar Vermelho a dentro, Lo deu o comboio como encerrado. Continuava de agora em diante apenas como o Vasco da Gama Rally, indo para Massawa, na Eritréia. Despedi-me dos outros barcos pelo radio, agradeci a Lo pelo seu empenho e a sua dedicação ao comboio, (administrar o comboio foi muito difícil), e segui para Suwakin, no Sudão, onde deveria embarcar 3 pessoas novas para o nosso projeto. Não quis continuar no rally, não gosto de vida de gado. Ouvir que o comboio tinha sido encerrado, e que a zona de atuação dos piratas da Somália tinha ficado para traz, era a noticia mais esperada nos últimos meses, desde que decidi ir a Ucrânia via Mar Vermelho. A intenção era reencontrar-me com a terra onde nasci, e onde só fiquei por 7 meses, durante a segunda guerra mundial, emigrando para o Brasil ainda criança. Tornei-me brasileiro, casei 2 vezes e tenho 5 filhos, todos baianos. Se não enfrentasse os piratas, teria que fazer um grande arrodeio pelo Cabo da Boa Esperança, aumentando o percurso em 12.000 milhas. A minha ida a Odessa, no Mar Negro, coincide com a celebração da festa dos 120 anos da emigração ucraniana para o Brasil, da qual farei parte. O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia e a Embaixada Ucraniana em Brasília, tem mantido contato comigo, e dizem estar nos esperando por lá, prometendo apoio também do Ministério da Ciência e Tecnologia, Juventude e Esportes, da prefeitura de Odessa e da Mídia em geral.

Cheguei em Suwakin, no Sudão no dia 16 de março e arriei o ferro para dormir e descontrair, depois desta travessia, desde a Índia, bastante estressante. Em seguida convidei os 3 novos participantes do projeto que estão providenciando o visto para poder vir. Daqui seguiremos para o Egito, depois Grécia, Turquia, Istambul e finalmente para Odessa no Mar Negro, antes de voltar ao Brasil.

Estou na África, mas não é defronte o Brasil e sim pelo outro lado do Continente Africano, exatamente no Mar Vermelho.

Clica aí para continuar lendo.

SudaoFamiliaEnfermeiro SudaoTais

Suwakin entrou em decadência desde que em 1905 foi construído Port Sudan, e toda a atividade econômica mudou-se para lá. As antigas casas estão em ruínas e seus proprietários já morreram, mas, esta nascendo uma nova Suwakin, baseada nas condições atuais da economia. Já tem algumas avenidas asfaltadas, um grande hospital, algumas escolas, mas só algumas ruas tem luz a noite e a água é transportada em carroça puxada por jegue. Cabras andam pelo meio da rua misturando-se com os árabes com suas batinas brancas e seus turbantes. Visitei a casa de um enfermeiro, já na área nova, onde ele investiu mais no muro do que na casa. O muro cercava todo o terreno e era de blocos de cimento, mas ele morava mesmo era debaixo de uns paus enfincados no chão, cobertos de esteiras, galhos de arvore e alguns panos e pedaços de lona que criavam sombra nas camas metálicas com tiras de plástico servindo de cama e de sofá. Na cozinha, quase sem panelas, não vi sinal de comida, como se ela fosse providenciada apenas na hora de comer, mas ninguém da família parecia desnutrido. O enfermeiro e os 5 filhos estavam bem, ele tinha um emprego no hospital e falava inglês. Tiramos muitas fotos, distribuímos presentes e na hora de sair eles fizeram um café. Torraram os grãos na hora, moeram no pilão e depois o café foi servido, muito forte e com gengibre em pequenas xícaras sem alças. Um verdadeiro ritual.

Fomos a Port Sudan de taxi, parando pelo caminho para tirar fotos dos rebanhos de ovelhas pastoreadas por mulheres montadas em camelos com o rosto coberto. Muitas cabras e camelos apesar da terra seca e quase sem nenhum verde, e de vez em quando um bocado de tendas no meio do nada, crianças correndo, sem poder entender como elas podem sobreviver ali sem ter nada alem de areia e raros arbustos ressecados. Depois fomos ver as montanhas, igualmente peladas, expondo a vida dura.

 

Estávamos em Suwakin, almoçando a beira mar, quando apareceu um grupo grande de jovens bonitas e bem vestidas, alem de alguns rapazes. Todos falavam inglês e eram alunos de belas artes da universidade de Kartun, a quatro meses da formatura, viajando pelo pais com alguns professores e desenhando as paisagens. Tive que conseguir uma licença especial para que viessem no Fraternidade, ver as obras de arte que tenho a bordo, os livros sobre o Brasil e seus artistas, quase um museu, onde tiramos mil fotos e filmamos os rostos lindos e sorridentes desta juventude africana. As disparidades são grandes, mas da para ver que a África esta avançando, ainda que devagar.

SudaoEstudantes

Clique aqui para a série de posts sobre Aleixo e o veleiro-escola Fraternidade.

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2 Comentários leave one →
  1. Neusa permalink
    quarta-feira, 6 abril, 2011 @ 11:23 am 11:23 am

    Muito interessante. Riqueza que só…

    Curtir

  2. sexta-feira, 8 abril, 2011 @ 12:14 am 12:14 am

    Coragem pouca é bobagem! talvez por vc já ter feito tudo o possível buscas algo mais!! inrível e louvável, e também invejável… babei!!!

    Curtir

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