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Mar Vermelho 2011 – O Vagabond e o filósofo dos sete mares

terça-feira, 3 maio, 2011 @ 12:07 am

VagabondHurghada

Cruzeirista é igual em todo o canto do mundo, até no Oriente Médio. Assim que o Vagabond entrou na Hurghada Marina, a nossa tripulante Taís foi logo dizendo: eita chegou o Cristiano, hoje vai ter festa! Não deu outra, à noite estava todo mundo lá, degustando uma feijoada de carne de vaca (é impossível achar porco em um país muçulmano), regada com um pouco de pimenta e muita cerveja gelada – esta, fácil de encontrar no maior balneário turístico do Egito.

FeijoadaHurghada

Cristiano ainda se lembra quando conheceu um velejador francês que passava metade do ano em Salvador em um veleiro, o Feijão. Papo vai, papo vem com o comandante do Feijão e a semente de uma viagem de barco começou a geminar na cabeça do adolescente. Quando Cristiano chegou na faixa dos 18 anos, a idade onde tudo é festa, a ideia juvenil já era um projeto detalhado e em andamento, já que toda a grana que entrava ia pro caixa de bordo do futuro veleiro. Só que ninguém sabia, nem mesmo o Rolim, seu pai que é cruzeirista de carteirinha e hoje tem um Trinidad 37´.

CristianoVagabondMinha experiência náutica se resumia a passeios com meu pai, me contou Cristiano no dia seguinte, enquanto filava o sinal Wi-Fi de um barzinho na orla da marina. O vestibular de vela foi no delivery do Vagabond, um BB 36´ tinindo de novo, do Rio Grande do Sul à Salvador. Não mais que oito meses depois da compra do barco, em outubro de 2007, Cristiano, Mário, que não sabia a diferença entre uma patesca e a avó do pato, e André saíram para um giro pelo mundo. Os velejadores amigos de seu pai chegaram a fazer um bolo pra ver quem acertava até onde eles conseguiriam chegar (o paizão apostou alto, que os meninos alcançariam fácil o Caribe).

Ninguém acertou os pitacos. Às portas do Canal de Suez, Cristiano completou 2/3 de sua volta ao mundo e muita água já passou por baixo da quilha do Vagabond. E tripulantes também. “Nesse tempo todo fiquei sozinho uns dois anos, mas sempre tenho gente a bordo para ajudar nas travessias, exceto de Fiji para Nova Zelândia que fiz em solitário, e nas ancoragens costumo arrumar um ou outra namorada”, ele me diz com seu jeito baiano de falar.

Quem está como tripulante agora é o fotógrafo Mário – o Rafael ficou só nos nove meses iniciais da viagem -, que além de tocar violão fez a tal feijoada. Acabou de embarcar também uma americana que foi encontrada pelo Find a Crew, um site de relacionamentos que já forneceu muitos tripulantes pro Vagabond. E isso dá certo, gente estranha a bordo? “Rapaz, eu sou um comandante relax, nunca crio muitas expectativas, sei lidar bem com o humor dos outros e se for uma boa tripulante posso até casar…”, Cristiano diz com um sorriso maroto. E completa sério: “só tive problema agora, no trecho de Salalah, em Oman, até Suakin no Sudão. Mas também a menina enjoava muito e ficou aterrorizada na área infestada de piratas. No Golfo de Aden estávamos a 50 milhas do do Ing, o barco holandês que foi sequestrado e até hoje não temos notícias dos sete tripulantes, três deles adolescentes (o outro foi o amreicano Quest, cujos quatro tripulantes foram mortos). Vimos toda a movimentação de helicópteros e o zun-zun-zun no rádio. Estávamos sem motor, perdemos o hélice, chegamos à Salalah rebocados. Foi muito tenso”.

Será que foi o maior estresse da viagem? Clica aí pra saber a resposta.

“Que nada, além de umas encalhadas básicas o Vagabond quase perdeu o mastro em Bornéu e no Mar da Tasmânia, no trecho de Opua na Nova Zelândia para Brisbane na Austrália, com André e uma suíça como tripulantes, enfrentamos a pior tempestade. Ventos de mais de 40 nós e ondas de 10 metros – acho até que eram maiores, mas pra não pensarem que sou mentiroso, está de bom tamanho – me fizeram ver o mundo de cabeça pra baixo. Um caos total, nessas horas uma garrafa de Red Label pode se tonar uma arma letal. O desespero maior foi ficar 4 dias à deriva na calmaria depois da tempestade, quase sem diesel, com uma corrente de 4 nós no empurrando pra fora do rumo – achei que o GPS tinha quebrado, a proa apontava prum lado e o barco andava pra outro – e ainda tendo que racionar comida pois a travessia prevista para 12 dias levou 18. Pra piorar o que já estava péssimo, um navio ao largo informou pelo VHF que estava vindo outra depressão. Taquipariu, às vezes a ignorância é uma benção”, Cristiano contou suas desventuras para, depois de tomar fôlego e dar um sorriso, arrematar com este causo: o maior risco de vida que passou foi enfrentar a ira de uma mulher.

CristianoHurghada“Quase casei em Papeete. A francesinha era linda, se tivesse dado certo seria um melhoramento genético para a minha estirpe. Namoramos cinco meses e depois de 13 dias com ela a bordo tudo foi pelos ares, literalmente: o relacionamento, as panelas, quase tudo que estava ao seu alcance. A mulher era louca, quase afundou o barco. Ainda ficou seis meses me azucrinando dizendo que estava grávida!”. Deve ter sido um sufoco danado para um solteiro convicto, já que Cristiano nem pensou em criar família por conta da vontade de sair pelo mundo como um vagabundo, “no sentido francês da palavra”.

E no fim da viagem, qual será o próximo projeto? Cristiano pensa um pouco e responde calmamente: “rapaz, sinceramente eu não sei. Antes de sair pra navegar eu trabalhava na Ambev como diretor comercial de distribuição no Equador, minha formação é administração de empresas, mas a vontade mesmo era ser transferido pra Rússia. Houve um tempo que quis ser político, mas teria vergonha de dizer minha profissão ao filho que ainda não tive, então, na volta, quem sabe se não consigo uma mobilização nacional para aprovar uma lei mais rígida que o Ficha Limpa, com a pena de morte para os políticos escrotos (vá lá, prisão perpétua já serve). Ou então, melhor ainda, vou estudar filosofia”.

A feijoada rolou até altas horas. Não duvido nadica de nada que logo, logo, teremos um filósofo baiano navegando pelos sete mares.

FeijoadaVagabond

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3 Comentários leave one →
  1. Tito João de Abreu permalink
    quarta-feira, 8 junho, 2011 @ 1:54 pm 1:54 pm

    Parabens para todos, que os bons ventos sempre os acompanhe.
    Parabens para as tecnologias atuais que nos permitem acompanhar tudo o que esta acontecendo. Infelizmente nos meus principios de velejador e nas minhas andanças pelo mundo, nao existiam estas tecnologias , ninguem sabia onde andavamos nem o que estava acontecendo, a nao ser quando alguem tinha desposição para depois escrever um livro das aventuras…. como fez o Aleixo com as suas tres marias , que eu lia atentamente..
    Nas tres voltas ao mundo que fazem parte da minha vida de vela, (duas em solitário) o equipamento mais sufisticado que eu consegui a bordo foi um ( set nave), comprado em MIami, que me custou grande parte da grana ganha em vários paises nos mais diversos trabalho..
    Gostaria de continuar recebendo boas noticias ….
    Abraços e bons ventos…
    Tito Abreu

    Curtir

    • quarta-feira, 21 dezembro, 2011 @ 10:55 am 10:55 am

      Tito,

      Grato pelo comentário.
      Você tem um site ou um blog contando suas experiências nas 3 circum-navegações?
      Tô me mordendo de curiosidade. Qual o barco, quando viajou, qual o percurso, por anda anda hoje, ainda veleja? São tantas perguntas.
      Que tal compartilhar com os leitores aqui do MaraCatu blog?

      Feliz tudo em 2012 e bons ventos sempre,

      Curtir

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