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Guillaume Le Gentil – azar em doses astronômicas

sexta-feira, 26 agosto, 2011 @ 6:21 pm
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GuillaumeLeGentil

É aquela velha história: quando não consigo navegar nas águas do mundo real, fico a surfar a grande onda da internet. E vejam só o que caiu na minha rede.

A figuraça

Guillaume Le Gentil nasceu em berço esplêndido no ano da graça de 1725. Quase seguiu a vida religiosa, mas o destino lhe pregou uma peça: acabou por se tornar astrônomo. Guillaume Joseph Hyacinthe Jean-Baptiste Le Gentil de la Galaisière tinha tudo a que o francês médio aspirava: filho de pais ricos, membro da Academia Real de Ciências, casado e… mulherengo – além de ser amante da copeira da casa, ainda se enroscava com a filha de 15 anos da serviçal. Ou seja, era uma figuraça de prestígio na corte do rei Luís XVI, mas também muito azarado.

O trânsito de Vênus

O astrônomo Edmond Halley tinha mostrado, em 1716, como a distância entre a Terra e o Sol poderia ser calculada a partir do trânsito de Vênus – que não tem nada a ver com a Deusa do amor para os romanos e sim com o fenômeno que ocorre quando a Terra, Vênus e o Sol se encontram alinhados. A idéia era até simples: medir a posição do planeta quando ele passar pela face do sol de lugares selecionados da Terra e, com base nos princípios da triangulação, obter a distância da Terra ao Sol.

Simples, mas difícil de executar. Primeiro porque os trânsitos de Vênus são bem irregulares. Eles acontecem em pares com oito anos de diferença, só se repetindo cerca de 121 anos depois. Para você ter uma idéia: o último par de trânsitos foi em 1874 e 1882 e o próximo no nosso século (após o de 2004) será em junho de 2012. Depois disso, só em 2117 e 2125. O segundo complicador é que teria que se montar observatórios nos quatro cantos da Terra, coisa difícil de fazer num planeta que, como se sabe, é redondo.

Mas vamos voltar à conturbada segunda metade do século 18. Por duas vezes, em 6 de junho de 1761 e 4 de junho de 1769, o planeta Vênus estaria passando entre a Terra e o Sol. Eis que surge o primeiro empreendimento científico cooperativo internacional da história. Depois de uma forte ação diplomática junto a todos os reinos da Europa, visando o trânsito livre para astrônomos, seus assistentes e toda a parafernália de equipamentos, vários países – Inglaterra, França, Irlanda, Rússia, Itália, Alemanha, Suécia, entre outros – deslocaram mais de uma centena de cientistas à cata do trânsito de Vênus.

O astrônomo mais azarado da face da Terra

Foi aí que a sorte de Le Gentil começou a mudar. Nosso astrônomo embarcou no navio L´Orient, em março de 1760, com o objetivo de instalar um observatório nas terras de Pondichéry, uma possessão francesa na costa oriental da Índia. Depois de dobrar o cabo da Boa Esperança, de lutar contra uma peste e uma invasão de ratos no navio, chegou as Ilhas Mauricios. Ali recebeu a má notícia que os franceses e os ingleses tinham começado a guerra dos Sete Anos. Tendo que mudar de planos zarpou em uma fragata para a costa de Coromandel e dali tentaria chegar a Pondichérry. Infelizmente quando estava quase chegando recebeu a segunda má notícia: a Inglaterra tinha capturado a região e estava fuzilando qualquer francês que fosse homem o suficiente para pôr os pés por lá. Guillaume estava navegando de volta para Mauricios quando chegou o tão esperado dia 6 de junho. O dia estava claro e com um céu limpo, adequado, portanto, às suas medições. Mas o coitado não contava com o mar: como fazer as observações nos solavancos do convés do navio, que não parava quieto?

Azar? Sim, mas ainda não acabou. Amanhã eu conto o resto da saga do astrônomo mais azarado da face da Terra.

A foto que abre este post eu pesquei no Delhicatessen.

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2 Comentários leave one →
  1. sábado, 17 setembro, 2011 @ 5:11 pm 5:11 pm

    Navegador assíduo a partir de agora desse belo e rico blog, procurando acompanhar o Fraternidade rumo ao Brasil. Como disse, Rafael, meu filho é um dos tripulantes, ou melhor, aprendiz. Na biblioteca do veleiro um livro meu de ficção. Boas leituras. Excelente viagem!!!!

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    • segunda-feira, 31 outubro, 2011 @ 9:59 pm 9:59 pm

      João,

      Bem vindo a bordo.
      Será que somos parentes? Também sou Carvalho, por parte de mãe, de um braço da família lá pras bandas do município de Serraria, na Paraíba.
      É um privilégio ter um filho como tripulante do comandante Aleixo, uma boa experiência de vida.
      Pena que não fiquei sabendo de seu livro quando fiquei por quase 100 dias a bordo do Fraternidade. Como já falei aqui no blog, uma das melhores bibliotecas flutuante que conheci.

      Bons ventos e apareça sempre, que vira e mexe tem coisa nova

      Curtir

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