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O veleiro escola Fraternidade na Antártica

domingo, 14 dezembro, 2014 @ 12:07 am

CapaFraternidadeAntartica

Está saindo do prelo mais uma obra do navegador baiano Aleixo Belov. Neste, o seu 7º livro, “O veleiro escola Fraternidade na Antártica”, ele conta a expedição ao continente gelado, realizada na temporada de 2014, com dez tripulantes a bordo do Fraternidade.

O lançamento será no Yacht Clube da Bahia, na Ladeira da Barra, em Salvador, às 18h do dia 16 de dezembro, seguido de coquetel e exposição de fotos da viagem, a maioria de autoria do fotógrafo Leonardo Papini. O livro, publicado pelas Edições Marítimas, tem 176 páginas, traz muitas dicas, alguns croquis das ancoragens, DVD e mais de 80 fotos. Quem não estiver na Bahia, depois poderá encomendar seu exemplar nas lojas Regatta, O Veleiro e Moana Livros.

Em entrevista por telefone Belov me contou que a vida tem etapas. Na primeira, com o Três Marias, um veleiro pequeno, ele deu três voltas ao mundo em solitário. Na segunda etapa ele foi tão feliz viajando sozinho que achou “uma sacanagem, depois de ganhar dinheiro, de não dar chance aos outros de conhecer o alto-mar”. Então construiu o veleiro escola, fez a quarta circum-navegação e treinou 26 alunos. Nesta embarcamos, eu e Mara, como uma espécie de “alunos especiais” na perna do Sudão, no Mar Vermelho, até a Ucrânia, no Mar Negro. Foi quando molhei as canelas em águas que nunca pensei um dia navegar. O Fraternidade é um veleiro preparado para todos os oceanos, mas Aleixo queria testá-lo primeiro velejando pelos trópicos e o barco foi aprovado. No verão de 2014 Aleixo viveu a terceira etapa: montar o Horn e atravessar a passagem de Drake.

Clique continuar lendo e nas imagens para ampliar.

FotosFraternidadeAntartica

Eu não fui só navegar entre o gelo. É claro que a Antártica é interessante, eu já tinha estado lá por 40 dias com Oleg Belly vinte e tantos anos atrás e fui também à Groenlândia com Alain Caradec, mas o desafio era o Drake. O Fraternidade foi a mais de 10 ̊ abaixo da latitude do Horn e passou pelo arquipélago de Melquior, a baía de Cuverville e Port Lockroy até chegar à Vernadsky, antiga base inglesa de Faraday, hoje pertencente à Ucrânia, nos 65 ̊ 15´ Sul.

No Drake, apesar da janela de bom tempo, a maior dificuldade foi uma neblina tão espessa que quase se podia cortar a faca e o medo de bater em algum iceberg. A janela estava se fechando e o comandante Aleixo não podia arriscar em diminuir o ritmo, então tocou o barco a todo o pano, com uma parelha de tripulantes com os olhos grudados em cada um dos dois radares, configurados em escalas diferentes, mais outros homens lá fora, à cata de gelo na parca visibilidade de 50 ou 60 metros. A navegação mais dura foi próximo das Malvinas, no estreito de Le Maire, na Terra do Fogo.

As maiores depressões passam entre as latitudes 40 e 60. Na costa argentina pegamos os piores cacetes do tempo, os ventos violentos de mais de 45 nós que faziam o barco todo tremer, parecia que as ondas queriam nos transformar em pó, mas que também faziam o barco andar que era uma beleza.

FotosFraternidadeAntartica2

Com este livro Aleixo Belov tenta desmistificar a ida à Antártica em um veleiro. Depois desta viagem ele acha até fácil, desde que se tenha conhecimentos específicos e um barco bem equipado, com velas novas, estaiamento revisado e uma tripulação motivada.

É claro que tem que ter um pouco de sorte e sempre estar atento às previsões de tempo, já que a área é propensa a tempestades. Antigamente era muito pior, os navegadores saíam sem informação alguma e tinham que aguentar o que o mar lhes oferecia, hoje é só ancorar em uma das últimas ilhas em volta do Cabo Horn e esperar o bom tempo. Nós pegamos uma janela de quase quatro dias bons, que é raro, já que a cada dois dias passa uma depressão.

Em Ushuaia havia mais de 40 veleiros de charter e todos compartilham informações sobre a área (o único que se negou, um tempo atrás, foi Alain Caradec que trata as ancoragens como segredo de estado). Na Antártica só os canais profundos são cartografados, então se usa croquis das ancoragens produzidos com levantamentos, alguns precários, feitos pelos navegadores. Eu consegui mais de 100 desses desenhos e vários estão no livro. Lá se ancora em locais rasos, para que os icebergs encalhem antes de esmagar o barco. Pra fundear é a maior faina: depois de jogar a âncora no fundo, há que se dar ré até quase tocar a margem para só então amarrar o barco nas pedras.

Em Port Lockroy encontrei o navegador polar Skip Novak, que me passou mais dicas de como chegar à Vernadsky. Tive que navegar por um canal feito um caracol, cheio de pedras e com muitos trechos rasos, , que não é problema para o Fraternidade, por conta de sua quilha retrátil. Na minha frente ia um australiano que já conhecia o canal muito bem, mas encalhou. Quando me aproximei para ajudá-lo ele conseguiu se safar sozinho, aí eu encalhei também. Mas não me preocupei, deixei o barco encalhado e fui de bote até o local de ancoragem. Analisei a zorra toda e depois, já a bordo, rodei o Fraternidade no eixo feito um pião, subi um pouco a quilha e fui pro fundeio. Sai do encalhe sorrindo, este barco é uma maravilha.

De Vernadsky, onde dormi abraçado com pequenos icebergs, voltei direto para o porto de Toro, na ilha de Navarino, no canal de Beagle, onde comi umas centollas maravilhosas. Voltei empurrando pequenos pedaços de gelo pelos canais estreitos, com vento na cara, com os dois motores de 125 HP a 2600 rotações que só me empurravam a um nó e meio. Cheguei a amassar o casco do Fraternidade, mas só um pouquinho. Oleg teve mais problemas nesta temporada, atropelou uma baleia que chegou a entortar os guarda mancebos da proa do Kotic.

Para Aleixo não há limite de tamanho de barco para navegar no continente gelado, “o barco capaz de ir está na sua cabeça”. Como sempre na volta destas viagens, o comandante traz uma lista de coisinhas pra melhorar no barco. Dessa vez foram 20 itens, entre eles motorizar as catracas da escota da genoa. Nos ventos violentos eles só conseguiam caçar a escota “a quatro mãos, com uma manicaca dupla, e dois caras fortes”. Um bom upgrade a bordo, já que o velho lobo do mar completará 72 anos em janeiro próximo.

Eu conheci tanta gente em Ushuaia e naquela região, eu aprendi tanta coisa. Esta viagem foi maravilhosa, o continente gelado deu-me a chance de observar a natureza e estudar tantos barcos preparados para navegarem em altas latitudes, conhecer tanta gente que sabe das coisas e isto me abriu uma série de novas oportunidades e novas janelas, só não sei se terei coragem de saltá-las.

Quem sabe a próxima janela se abra sobre o Alasca? Vou torcer pro meu comandante ter vontade de pular.

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One Comment leave one →
  1. segunda-feira, 16 maio, 2016 @ 8:14 pm 8:14 pm

    Olá Hélio
    Eu sou sócio do Aleixo e publiquei recentemente a nossa viagem à Antártida a bordo do Fraternidade. Veja os links abaixo, caso queira publicar em seu blog.

    Viagem do velejador Aleixo Belov à Antártida no Veleiro Fraternidade

    Episódio 1 – Salvador – Ilha Bela – Punta Del Leste

    Episódio 2 – De Punta Del Leste a Baia Bom Sucesso

    Episódio 3 – Baia de Bom Sucesso – Ushuaia – Antártida

    Episódio 4 – Antártida (Arquipelágo de Melchior)

    Episódio 5 – Antártida (Cuverville e Port Locroy)

    Episódio 6 – Antártida (Port Locroy e Vernadsky)

    Episódio 7 – Da Antártida (Vernadsky) a Ushuaia

    Episódio 8 – De Ushuaia a Salvador

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