Aviso aos Navegantes
☆ Acompanhe a vigem do trawler Ferrara no Mediterrâneo pelo Find me Spot ou nas notinhas rápidas do Twitter do MaraCatu
☆ Aos comentaristas: continuem deixando seus pitacos, na volta prometo responder a todos
Atlântico 2010 – FotoLog de Natal a Mindelo



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Mediterrâneo 2010 – Diário de Bordo 1
Depois de um descanso reparador e muita bateção de pernas em Ceuta (depois conto os detalhes), amanhã logo cedo partiremos com destino a Cartagena, já na Península Ibérica, onde ficaremos pelo menos 2 dias.
Quem definiu nosso próximo porto foi a meteorologia, que nos informa ventos de 30 a 35 nós de Oeste (o tal do Poniente) a partir de terça-feira entre Gibraltar e o Cabo de Gata. Apesar de ser favorável é muito vento, então atravessaremos esse trecho, segundo a previsão, com 10 nós de Sudoeste, também favoráveis. Na média do Ferrara, estas 240 milhitas, se Iemanjá e Eolo assim o permitirem, serão feitas em 36 horas.
Iniciamos a bordo o Campeonato Europeu de Dominó. Quem levou a melhor na rodada de Ceuta foi mi capitán Jordi, mas pretendo me recuperar na rodada de Cartagena, na semifinal em Ibiza – nas Ilhas Baleares -, e na grande final em Vila Nova, 130 milhas depois, já em águas da Catalunha.
Atlântico 2010 – Diário de Bordo 14
Parece que já vi este filme antes. 12 horas antes do Estreito de Gibraltar o nordestão entrou com força e nos obrigou a dar um bordo pra Leste à cata de menos vento. Depois de muito bater, ontem, às 11:13 (19:13 de Brasília), montamos o cabo Espartel e trocamos de mar, do vasto mar oceano navegamos, enfim, no mar do meio da terra.
A ideia era levar o Ferrara de Angra para a Europa mas, devido a previsões de mar grosso e fortes ventanias no lado Norte do Estreito, fomos parar na África! Estamos na cidade autônoma de Ceuta, um pedaço da Espanha numa península da costa mediterrânea africana. Depois de dois dias de descanso, a brava tripulação seguirá sua jornada, agora para a Península Ibérica.
Atlântico 2010 – Diário de Bordo 13
O tal Levante sumiu da perevisão. Até segunda ordem estamos com rumo direto para o Cabo Espartel, na boca do Estreito. Poucos navios avistados, a coisa vai esquentar mais perto do cabo. Não temos conseguido contato com Rafael, via SSB às 15 e 22h GMT.
Na impossibilidade de jogar dominó, as pedras escorregam da mesa, devoramos os novos livrinhos de Sudoku (Mara é craque, também o jogo é pura lógica). O almoçco foi filé de dourado frito no azeite com salada russa (receita de Jordi).
Agora estamos 90 milhas a Oeste de Casablanca, no Marrocos (lembra do filme?), com vento NNE de 18 nós e mar de poucas vagas.
Post by e-mail via Iridium da posição 34°02´ N – 009°22´ W
Atlântico 2010 – Diáriário de Bordo 12
Está previsto um vento Leste de 25 nós para o Estreito de Gibraltar no fim de semana. É o famoso Levante, oposto ao Poniente que é o vento Oeste. Para nós seria melhor o Niente, mas fazer o que?. Uma opção é manter o rumo mais ao Norte e, se confirmar o tal ventão, buscar abrigo no Porto de Cádiz.
Perdemos um cozinheiro e o pescador de bordo. Na saìda de Las Palmas a porta da cabine mordeu o dedo anular de João, que inchou bastante e está com a unha roxa. O acidentado foi medicado e passa bem, mas perdeu a hegemonia no dominó. Na última série de 10 partidas fui o campeão e também já matei 2 dourados de bom tamanho (pequenos pro resto da tripula, Jordi até queria devolver o 1° ao mar).
No log das 08:00, fizemos 163 milhas em 24hs. Agora estamos no través da Madeira, lá longe 260 milhas a Oeste, com um vento NNE de 15 nós e mar lateral que faz o Ferrara balançar um pouco.
Post by e-mail via Iridium da posição 32°18´ N – 011°47´ W
Atlântico 2010 – Diáriário de Bordo 11
A escala em Las Palmas de Gran Canaria foi revigorante, deu pra esticar as pernas, descançar dos 15 dias e 12 horas de navegaçao quase initerruptas (a parada em Mindelo, de 23 horas, foi só para reabastecer) e dar uma boa geral no Ferrara.
Depois do evento do enrrosco na rede (oops, é rede de pesca!), Jordi comprou um compressor portátil, mais regulador e 30 metros de mangueira, que já valeu o investimento. Na saida da vaga do Muelle Deportivo, por falha minha, enrroscamos um cabo no hélice de boreste. Mi Capitán conseguiu levar o Ferrara de ré até a gasolineira da Texaco onde o cozinheiro João se transformou em Custeau (pelo menos o nariz é do mesmo tamanho), mergulhou usando o novo narguilé e nos safou do problema.
A janela para Gibraltar continua aberta, estamos com mar calmo e ventos de NNE de 10 a 15 nós. Segundo as anotações de Mara, às 8 da manhã (GMT+1), em 15h40min de navegação, já tínhamos feito 101 milhas. Vamos num rumo mais Norte para evitar os ventos mais fortes previstos para perto da costa da África.
Post by e-mail via Iridium da posição 30°16´ N – 013°31´ W
Atlântico 2010 Partida para o Mediterrâneo
Depois de uma semana em Las Palmas de Gran Canária, entre tapas (tira-gosto) e muitas Tropicais (a cerveja local), estamos partindo amanhã com destino a Gibraltar, a porta de entrada do Mediterrâneo.
A previsão para navegar estas 700 milhas, se Eolo e Iemanjá assim o permitir, é de 5 a 6 dias. Fique ligado no Find me Spot do Ferrara.
Atlântico 2010 – Impressões de viagem
Desde os tempos imemoriais o ser humano vive dividido entre dois impulsos contraditórios: segurança e aventura. Qual a aventura nesse mundo quase pronto, onde teoricamente tudo funciona, e tão encolhido pelos modernos meios de comunicação e locomoção? O que podemos fazer para pular a cerca elétrica? Atravessar um oceano à moda antiga, por via marítima, é uma aventura possível.
Todos os anos mais de 1 000 barcos cruzam o Atlântico, normalmente no rumo de casa. É o que vamos fazer com o trawler Ferrara: levá-lo de volta a Europa, depois de quase 10 anos nos mares do Sul. Sim, é um risco calculado. Mas tem coisa mais desafiadora do que saber dos perigos que a gente pode correr numa travessia transoceânica e mesmo assim estar disposto a embarcar? Esta é a aventura.
Certa vez perguntei a Lin Pardey, que se preparava com o marido Larry para cruzar direto de Angra dos Reis para a Irlanda, se não dá certo receio fazer uma travessia tão longa num barco de 29’ sem motor? Lin sorriu e me respondeu que não, que uma vez estando tudo preparado era só desligar o botão de “what if”.
Saímos na 1ª sexta-feira de agosto, um dia não propício segundo os franceses para iniciar uma travessia. Ainda mais com a visão da draga La Belle espetada nas pedras do molhe da entrada do porto de Natal. Desliguei o botão do “e se” acontecer algo, mas, mesmo assim, não deixei de sentir um friozinho na barriga.
Os primeiros três dias são sempre os piores. O corpo reclama: quem é de enjoar deita cargas ao mar, trabalhamos músculos pouco solicitados em terra e mudamos nosso regime de sono. Depois o organismo se adapta, ao tombo do mar, a cochilar entre os turnos de vigília, entramos no ritmo e criamos até uma rotina.
Numa travessia deste porte tem sempre umas coisinhas para fazer a bordo. Já é esperado, levamos um monte de peças de reposição, mas não é nada agradável escutar soar o alarme de alagamento no meio do mar. A mangueira de uma das bombas de esgotamento do porão, a que vai acoplada ao motor por uma correia, estourou e parecia um chafariz com todo o Oceano Atlântico querendo entrar no barco por um buraco de 1 ½ polegada. Ajudei mi capitán Jordi, que além de chef de cuisine profissional era o chefe de máquinas, a estancar a entrada d’água. Foram horas na casa de máquinas que parecia uma fornalha sacolejante e se de fato o bafo quente do inferno existe, posso dizer que já o conheço.
Netuno não compareceu à cerimônia, pois todos os quatro tripulantes já tinham cruzado o Equador em navegadas anteriores. O Ferrara cruzou a linha imaginária, que é um fetiche para todo navegador de águas azuis e separa o mundo em Norte e Sul, no domingo, dia 8, às 22:30, na longitude 030º 54’ W. Não tomamos um gole de Aquavit, comemoramos com uma garrafa de cava, o espumante catalão, e degustamos um carpaccio que Jordi preparou com o peixe que João Gaucho pescou ao entardecer. Foi uma festa.
Engana-se quem pensa que no mar tudo é monótono. É incrível como passamos horas olhando o mar, que está sempre mudando, o azul profundo, a crista acesa das ondas maiores, uma ave que tenta pousar no convés. Depois de um tempo de viagem os prazeres se tornam singelos: o pão fresco quentinho que Mara fez para a ceia, a reunião de toda a tripulação no happy hour ao pôr-do-sol, ler o e-mail diário de João Carlos com a previsão de ventos favoráveis e mar amigável. Muda-se, também, a percepção de magnitude: naveguei em profundidades de 5 150 metros, logo eu que mal sei nadar e posso me afogar em 1,70m de água; na reta final flagrei Mara dizendo que faltam “só” 315 milhas para nosso destino, é logo ali, algo como uma regata Recife-Fernando de Noronha.
Nos turnos noturnos, sentado sozinho no convés, não me cansava de fitar o firmamento.Um céu quase desconhecido, com o Cruzeiro do Sul cada vez mais baixo no horizonte e a Polar em nossa proa – estrelinha difícil de achar, mesmo depois de Jordi mostrar os alinhamentos com as bissetrizes do “W” formado pela constelação de Cassiopéia. No Hemisfério Sul estamos acostumados a ver a lua crescente em forma da letra “C” e a decrescente em forma de “D”. Na banda de cima do Equador se diz que “a lua engana”, é tudo ao contrário.
Quando, depois de navegar 1 573 milhas em 222 horas, jogamos a âncora em Mindelo e desligamos os motores, o silêncio se fez tão sólido que dava para fazer um lais de guia. Mindelo, na Ilha de São Vicente, a capital da vela do arquipélago de Cabo Verde, está a menos da metade do caminho até o velho mundo, mas considero este trecho a travessia. O vasto Atlântico já ficou pra trás, agora serão pernas longas, mais difíceis até, mas com várias escalas pelo caminho. Só me resta plantar umas árvores para compensar os 3 733 litros de diesel que queimamos.
Atlântico 2010 – Diário de Bordo 9

Como você já deve ter visto pelo Spot, chegamos em Las Palmas de Gran Canária na segunda-feira 23 às 18:20 (14:20 de Brasília). O ultimo trecho foi duro, com vento na cara e muito mar.
Já com a ilha no visual, nossa preocupação se confirmou: enroscou algo no hélice de bombordo. Mi capitán Jordi mergulhou e gritou da água, aliviado, que tinha sido “só” uma rede. E que rede, parou um motor de 6 cilindros imediatamente! Estávamos a 7 milhas de Passito Blanco, onde tem uma boa marina e um mergulhador para desenroscar a maçaroca. Ancoramos na enseada, fizemos um super happy hour e dormimos como anjos. Nem desembarcamos, depois de safos da rede saímos perto do meio-dia para o ultimo trechinho. Meras 36 milhas que se mostraram o pior pedaço.
Ainda não tive uma explicação para o fenômeno, mas entre a Punta Tenefer e a Arinaga, onde fica o aeroporto da ilha, normalmente sopra 25 ou 30 nós contra uma correnteza estimada de dois nós que forma um mar digno de uma Brastemp. Sorte que o Ferrara é bom de mar de proa (lembra que suas linhas são as de um barco de pesca do Mar do Norte?), seu casco em “V” profundo corta as ondas igual manteiga e suas 65 toneladas caem das cristas sem bater, macio como um ônibus com suspensão a ar. Agora, né pra falar não, que foi o pior contravento de toda a minha existência náutica, ah, isso foi!
Estamos em um píer flutuante do Molle Deportivo, uma marina publica em frente à cidade – como a Marina da Glória no Rio, só que 6 vezes maior -, bem acomodados e com internet a bordo (graças a insistência de Mara, que aporrinhou o vendedor até conseguir fazer funcionar o chip da Movistar no modem da Vivo).
Na terça-feira, com o barco já doce e arrumado, tinha sal até no topo do mastro, mi capitán chegou da rua com umas garrafas de tinto Ramón Bilbao e Murua, ambos da região de Rioja, mais uma caixa de cerveja Voll-Damm para mim e algumas iguarias espanholas: 8 Kg de jamón Pata Negra (pernil de porco ibérico, que só se alimenta com uma amêndoa chamada “bellota” e é preto, daí a pata negra), sobrasada maiorquina (patê de porco temperado com pimentão) e lomo ibérico embuchado (lombo de porco, também ibérico, embutido e temperado com alho). Um mimo para toda a tripulação do Ferrara que acabara de cruzar o Atlântico, afinal já estamos na Espanha.
Post via internet de bordo, da posição 28°07´ N – 015°25´ W
Atlântico 2010 – Diário de Bordo 8
O Ferrara tem uma tela de nylon, colada em todo o casco abaixo da linha d´água, para proteção contra os guzanos. Com as pancadas do mar, esta tela se desprendeu em pedaços da proa até quase a meia nau. O perigo é descolar um painel grande e enrroscar nos hélices. Sabe aquela situação quando não se tem uma solução para um problema? Então para tudo e vamos pensar. Passamos metade da noite a deriva, com os motores desligados e o barco de lado para as ondas. Quando amanheceu veio o pior: nã há nada que possamos fazer aqui, no meio do mar.
Parece minha sina. É a segunda vez, no trecho Mindelo-Canárias, que fico boiando, ao sabor dos ventos e correntes, igual a um pedaço de pau. A outra foi com a escuna Waltur Bahia, em 2 000, quando ficamos sem leme.
Mas a moral da tripulação está alta, sempre tem hapy hour ao pôr-do-sol e João tem dado uma surra danada na gente no dominó. Seguimos com velocidade reduzida, com previsão de chegar em Las Palmas no domingo às 21:oo (18:00 de Brasília).
Post by e-mail via Iridium da posição 25°41´ N – 018°07´ W















